Paira no ar a sensação cada vez mais desagradável de estarmos a sentir, em Portugal como no resto do mundo, a suspensão por tempo indefinido de todas as nossas referências vitais: não só a ameaça à saúde e a incerteza quanto a resposta do SNS, mas também a preocupação com o emprego e o respectivo salário, assim como o volume das reformas dedicado a uma população cada vez mais envelhecida; do mesmo modo, idêntica incerteza pesa sobre o funcionamento das escolas e de administrações públicas sem capacidade de resposta atempada.

O aspecto mais inquietante deste momento que se prolonga sem termo à vista reside no facto de já toda a gente ter percebido que o fim da pandemia e o pleno ressurgimento da «vida normal», nomeadamente a vida económica, não só não estão à vista como não dependem dos governantes – nem dos nossos nem dos outros. Se dependemos de algo é, na realidade, da vacina prontamente anunciada mas que tem resistido até agora aos esforços das empresas farmacêuticas e acerca da qual há cientistas com pouca esperança para já.

Neste sentido, estamos para lá da vida política – da habitual como de qualquer outra. Por outras palavras, com maior ou menor acerto conjuntural, nenhum governo do mundo porá termo a essa desagradável sensação de perda de controle sobre o nosso dia-a-dia e sobre o futuro, em especial o das crianças, cujas necessidades e desejos não se conseguem conciliar com os dos adultos e das instituições que deveriam ocupar-se delas, em especial os professores das escolas primárias e dos primeiros anos do liceu público. Vão os governos obrigar os professores a trabalhar em condições perigosas para eles?

Foi neste quadro situado para além da política e, concretamente, da política profissional dos partidos que conhecemos, sobretudo em países com pouco sentido do serviço público como Portugal e a Europa mediterrânica, que tem surgido um pacote variado de ideologias produzidas nas franjas da chamada «extrema-esquerda». De aparência pós-partidária, tais ideologias são produzidas na base de uma reedição da «crise geral do capitalismo» que tornou os partidos profissionais incapazes de resolver um problema que só a vacina eventualmente resolverá mas não se sabe quando. Desde o «esquerdista radical» Slavoj Zizek, como ele próprio se designa, a Boaventura Sousa Santos, tem surgido uma verdadeira biblioteca de sonhos ao dispor dos «confinados»…

Mais perto da terra, o economista e historiador francês Yann Moulier-Boutang acaba de publicar uma versão muito inteligente da situação em que os donos do poder europeu se encontram sob a ditadura do coronavírus e da correspondente obrigação de garantir a sobrevivência da população enquanto a vacina tarda. Bem antes disto, já surgira o conceito de «rendimento garantido» concebido há décadas por Philippe van Parijs, o qual se inspirava por sua vez do «salário doméstico» então reivindicado pelo esquerdismo italiano. Agora, foi o economista e antigo secretário de Estado da Segurança Social, Fernando Ribeiro Mendes, quem publicou um estudo muito ponderado e oportuno acerca desse «rendimento universal».

Segundo estas últimas propostas de origem universitária, mais concretas e menos ideológicas, o capitalismo em suspensão, como efectivamente está, com uma quebra absolutamente inédita de 16,5% em relação ao ano anterior, viu-se forçado a imprimir dinheiro sem olhar ao custo do papel de modo a fornecê-lo sem contrapartida ao enorme número de pessoas que não terão outro rendimento sem uma inesperada versão do «salário universal»!

É neste contexto mantido pela ausência de vacina e a persistência da pandemia que se irá falar cada vez mais, conforme Ribeiro Mendes sublinha. Neste momento, é isso que os governos estão a fazer e a prometer continuar enquanto não acabar o dinheiro de Bruxelas, o qual, por enquanto, ainda não chegou e não é o turismo que será o paliativo… Afinal, entre pensões e reformas, assim como a série de subsídios de todo o género distribuídos pelos governos às suas clientelas eleitorais, o Estado português já entrega a mais de três milhões de pessoas uma parte muito substancial do orçamento de Estado…

Neste momento, porém, não são meramente os governos e os seus partidos que se vêem obrigados a dar, literalmente, dinheiro que a economia não produz e assim continuará a ser enquanto a vacina não for – se e quando vier a ser – descoberta e a pandemia dominada. É o próprio sistema capitalista que não hesita neste momento em hipotecar-se – fazer dívida, em suma – a fim de obstar ao desencadeamento de movimentos incontroláveis da população no dia em que um número considerável de pessoas não tivesse meios para aceder ao mínimo vital… Em resumo, o prolongamento da situação torna indiferente a actuação dos partidos profissionais e daí que já se sinta a crise de credibilidade dos sistemas partidários. A acompanhar de perto!