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Churchill dizia que não havia nada mais fácil do que deixar de fumar e que ele próprio já o tinha feito diversas vezes. Eu também deixei de fumar, pelo menos, três vezes. Andei com selos nas costas, contei os dias, comprei um porco-mealheiro para pôr lá dentro o dinheiro que não gastava em tabaco, fiz meditação (o desespero justifica tudo) e desisti. Pelo caminho engordei vários quilos, o que reduziu a minha auto-estima e a minha carteira (tive que comprar calças, camisas, casacos maiores). Isto para dizer que sou parte interessada no que se segue.

As primeiras campanhas de prevenção e de protecção dos não fumadores foram lançadas nos EUA e no Reino Unido nos anos 1960, dez anos depois de serem publicados os primeiros estudos sérios sobre a associação entre o fumo e o cancro do pulmão (ver aqui e aqui). As poderosas companhias tabaqueiras ripostaram e até a emancipação das mulheres serviu para vender cigarros, retomando uma campanha do princípio do século, “Torches of Freedom”. Mas é evidente que as campanhas de informação e prevenção e as medidas de defesa dos não fumadores são inteiramente justificadas.

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A campanha feminista “Torches of Freedom”

O que me custa a engolir é a forma das campanhas e a atitude que lhes subjaz. Da proibição de fumar em espaços públicos fechados (fácil de compreender) está a passar-se progressivamente para a proibição de fumar em todos os espaços públicos – como se um fumador fosse um pervertido que deve ser, pelo menos, escondido dos olhares das pessoas normais, das crianças, dos inocentes. E boa parte dos avisos escritos nos maços de tabaco são ridículos. Já os leram com atenção? Os meus preferidos são os orientados por género: “fumar causa o envelhecimento precoce da pele” e “fumar provoca impotência”. Agora são as fotografias mórbidas: tudo isto ultrapassa claramente a defesa do bem público.

Quando comecei a tomar notas para esta crónica, a minha ideia era tratar o tema como mais um exemplo da intrusão do Estado na vida privada, ou como exemplo da propensão das elites para ditar normas ao povo ignaro. Pensei convocar de novo o fundador da saúde pública, Johann Peter Frank (de quem já falei aqui, a propósito dos internamentos compulsivos) e Jeremy Bentham, para quem uma acção se justifica quando promove a maior felicidade para o maior número. Mas, enquanto escrevia, percebi que nada disso podia explicar o fenómeno. O nosso Estado é intrusivo mas não é totalitário. As elites são arrogantes mas raramente persistentes. A saúde pública esteve na base de muitos abusos nos últimos dois séculos mas parece-me que, neste assunto, é mais pretexto que motivo, mais assistente que autora.

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Tratar-se-ia então do regresso a uma moral punitiva? Mas pode acreditar-se que nesta nossa sociedade toda liberal, arco-íris, multiculturalista e mais não sei quê, é uma ideia moral que guia os castigadores dos viciados no tabaco?

A verdade é mais simples: circo. A cruzada contra o tabaco satisfaz a obscura necessidade humana de expor e humilhar os seus semelhantes: os vencidos nos triunfos romanos, os aleijados nas feiras do século XIX e, agora, os fumadores. Só isso explica as “zonas de fumo” dos aeroportos, que oscilam entre a jaula e o esgoto, e onde se verificam religiosamente dois princípios: expor os “anormais” ao gáudio da populaça (as paredes são sempre transparentes) e obrigá-los a asfixiar no seu próprio fumo (as ventilações são sempre péssimas). O que é que isto me faz lembrar?

Claro que o circo exige caução, seja ela a lei de Deus, o costume ou a evidência científica. Os argumentos contra o tabaco (de resto, verdadeiros) servem à perfeição.

À sede de circo soma-se a beatice e, de uma forma geral, o gosto que a maioria das pessoas sente em espreitar a vida dos outros, censurar-lhes (depois de os conhecer e esmiuçar) os vícios. A beatice é o cruzamento entre o puritanismo e a cusquice. Do adro da igreja da paróquia e das frestas das janelas da aldeia transportou-se para o espaço público, dos reality shows às redes sociais.

Qualquer fumador sabe que, mesmo sem puxar do cigarro e só porque é fumador, é sistematicamente sujeito pelos “outros”, os que não fumam, a uma minuciosa discussão dos vícios e debilidades associados ao tabaco. Ainda não consegui perceber se é para edificação moral do relapso se, pura e simplesmente, para gozo pio dos não fumadores.

Médico patologista