Quem nos dias de hoje não passa a vida de cabeça para baixo a trocar mensagens? Entre plins e zzz’s, teclar passou a estar na ordem do dia! Mensagens de amor, de humor, de trabalho, grupos de amigos, grupos de família, mensagens de flirts, mensagens de discussão, tudo se fala dentro dos retângulos pequeninos. Sms’s, WhatsApp, Instagram, Messenger e afins das novas aplicações de encontros.  A toda a hora, a todos os minutos e segundos. Forma de comunicação universal. E porque se passou a falar mais por mensagem do que de viva voz? A explicação imediata dos assíduos utilizadores é que é mais prático e imediato. Mas no entanto, parece que se a primeira intenção é a de não perder tempo, faz perder dias inteiros de volta do telemóvel, que passou a ser a extensão da mão e o alvo das vistas, cada vez mais curtas e inutilizadas para olhar o horizonte.

Trocam-se mensagens que demoram o mesmo (ou mais) tempo do que uma conversa de viva voz. Mas questionemo-nos se tal não é uma meia conversa, pois falta o tom e as entoações, as expressões faciais, os gestos, as pausas e os silêncios. Falta a pessoa inteira. Falta o que podemos chamar de mais pessoa, ou seja, a pessoa completa e não parte de si. Uma conversa com C maiúsculo é frente a frente, face a face, olhos nos olhos, onde falamos e comunicamos (o que nos vai também na alma) para além das palavras escritas. De viva voz ligamo-nos e deixamo-nos ligar ao outro. Nas mensagens, temos aquilo que nós e o outro queremos revelar ou velar. Temos só as palavras, que podem (tantas vezes) ser mal interpretadas.

Parece que agarrar no telefone e falar de viva voz com a outra pessoa é algo feito por uma minoria de nós hoje em dia. Agarra-se no telefone sobretudo para escrever. A uma mão, a duas mãos, a andar, a guiar, a trabalhar, até a tomar banho, a almoçar, a jantar… quase sempre a teclar. Zzz’s e plins mesmo acompanhados por outras pessoas à nossa frente, com quem se pode estar a desenvolver um diálogo, mas as mensagens paralelas noutras conversas não param. Sobrepõem-se conversas, multiperguntas e respostas, atenções dispersas. Quem escuta verdadeiramente quem, neste frenesim de múltiplos canais comunicacionais? Ou, o que afinal se escuta no meio de tanto ruído? Como se dá atenção a tantas pessoas ao mesmo tempo e à distância do olhar e da presença?

O que é uma conversa afinal? Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, o autor do conceito da sociedade líquida da era da modernidade, as conversas de verdade são as tradicionais e não as virtuais. Acrescentemos, que conversar é estar em relação com o outro. Estar em relação com o outro implica tempo para criar cumplicidades no contexto da convivência e pela oportunidade de alimentar diálogos profícuos e de co-conhecimento. Perante a volatilidade do tempo líquido, escasseia a possibilidade do aprofundamento de boas conversas (boas no sentido de serem nutritivas, autênticas e enraizadas numa relação). Falar somente por mensagem não possibilita o entrosamento das tais pessoas inteiras que vivem nos encontros reais a ligação de duas personalidades, duas subjetividades.

Não menosprezando a utilidade de trocas de mensagens e, eventualmente, a comparação de algumas mensagens a cartas de outros tempos, reconhecendo a poética de muitas palavras trocadas, conversar ao vivo e a cores é o meio mais completo de comunicação entre pessoas que se querem verdadeiramente acolher e dar ao outro. A intimidade constrói-se na presença.