A nossa TAP tem que ser reestruturada. A TAP, que é o primeiro contacto com o nosso país para todos os nossos emigrantes quando regressam a casa, a TAP que repatriou cidadãos no início da pandemia, a TAP que vai transportar alguns dos lotes de vacinas para combater a mesma pandemia, a TAP que assegura voos para alguns destinos estratégicos que ,de outra forma, não teriam ligação ao nosso país, a TAP que tem milhares de trabalhadores e que assegura um volume de negócios relevante a centenas de empresas portuguesas, a TAP que serve um país que é um destino turístico, que tem um hub localizado geograficamente num ponto estratégico e fortes ligações a vários países, essa TAP tem que ser reestruturada, dizem-nos. O SITEMA – Sindicatos dos Técnicos de Manutenção de Aeronaves – concorda.

A questão é: que reestruturação vamos implementar? Alguém a conhece? Nós, não.

Realisticamente falando, nós, trabalhadores da TAP, somos os primeiros interessados num modelo que funcione e seja competitivo, por isso apelamos a que essa reestruturação seja verdadeira.  Que não seja um corte cego adicionado de uma operação de cosmética. Uma verdadeira reestruturação tem que tornar a TAP mais rentável, mais organizada, mais eficiente, mais competitiva, com novos processos e, muito importante, com uma estrutura mais horizontal. Esta reestruturação não pode seguir a fórmula cega utilizada nas anteriores, que basicamente se limitaram a fazer cortes, não mexendo nem alterando o que funciona mal e não cortando as gorduras da empresa. No passado nunca funcionou, sabemo-lo bem, e não será desta vez que a mesma receita dará outro resultado.

Dentro da TAP temos várias TAP’s, a TAP ME Portugal (Manutenção e Engenharia), a que eu e mais 900 Técnicos de Manutenção de Aeronaves (TMA’s) pertencemos, tem um historial de resultados financeiros positivos. Só em 2019, foi responsável por entregar à companhia aérea de bandeira portuguesa 47 milhões de euros. A TAP ME é responsável por uma das grandes marcas de sucesso da TAP, a sua segurança. Ao longo dos anos, os trabalhos realizados pela TAP ME para a própria TAP, mas também para diversas outras companhias estrangeiras, das quais Lufthansa, Air France ou Fedex são só alguns exemplos, têm granjeado não só o apreço desses clientes, mas também um reconhecimento da qualidade de serviço, atestada pela atribuição de vários prémios internacionais,e prémios da própria AIRBUS.  A qualidade dos nossos TMA’s é largamente reconhecida pelo mundo e a TAP ME é, assim, um ativo financeiro e reputacional para o Grupo TAP e para Portugal. Em grande parte por causa da TAP ME, viajar na TAP é viajar em segurança. A TAP ME não será, certamente, dentro do grupo, a única estrutura a ter contributo positivo para os resultados da empresa, mas está seguramente, entre as poucas que o faz.

Perante tal facto… as perguntas finais: vão os cortes anunciados ser aplicados de igual modo ao que funciona bem e ao que funciona mal? Pode Portugal prescindir de uma das suas últimas grandes marcas? Pode Portugal prescindir de uma indústria com tecnologia de ponta, como é a da aeronáutica, e de uma empresa que possibilita manter e criar emprego altamente qualificado? No caso concreto da TAP ME Portugal, queremos acabar com uma estrutura rentável e evitar uma aposta comercial estratégica na captação de mais clientes e de mais empresas estrangeiras, que possibilitarão o desenvolvimento de um verdadeiro cluster aeronáutico, onde Portugal em geral, e a TAP em particular, mantêm um elevado potencial e know-how reconhecido internacionalmente? Porquê?