Um líder de uma geração que passou, um partido controlado que se vai afastando e minguando, navegação à vista por ausência de destino e um discurso da bolha e para a bolha. Conseguimos reunir todos os ingredientes para a corbinização do PSD.

O partido está a minguar. Desde as “excitantes” diretas entre Rio e Santana Lopes o partido perdeu 42% dos militantes em condições para votar. Entre aqueles que efectivamente votaram, o partido perdeu um quarto dos eleitores. E mesmo assim os candidatos aparecem sorridentes. E estamos a falar de Rio e Santana Lopes. Dois candidatos que trouxeram milhares à rua. Ou então não. Corbin.

O partido ruralizou. Na primeira volta das eleições directas, o candidato que ganhou dois dos três distritos mais populosos do país não conseguiu chegar aos 10% da votação nacional. Depois estranham que a mensagem do PSD não chegue ao eleitorado urbano e que perca eleições nos círculos que mais deputados elegem. E não. O partido nunca foi assim. Corbin.

O partido vive dentro de uma bolha. E vive tão dentro da bolha que nem interessa que o país real tenha rejeitado esta liderança e esta maneira de fazer política (27% dos votos nas últimas legislativas). Corbin.

O partido perdeu importância. No dia seguinte às eleições directas, o congresso do Livre mereceu dez minutos de noticiário. A vitória de Rui Rio? Pouco mais de 30 segundos. Corbin.

O partido deu um banho de ética. Durante anos andámos a falar de caciques e a perseguir carrinhas com militantes em Lisboa. O fenómeno acabou. Em Vila Verde, pequeno concelho de Braga com menos de 5o.000 habitantes, quase 1,5% da população é militante do PSD e com quotas pagas. Rio ganhou em Vila Verde. Com 500 votos de diferença. Corbin.

O partido agora aceita lições. O líder agora eleito exige respeito e lealdade. Lealdade é coisa de marido traído. Respeito é coisa que se conquista. E quem é que este senhor julga que é para me explicar se estou bem ou mal no meu partido? Na minha própria casa? Há sempre uns que se julgam donos da coisa. Não percebem que presidente é cargo temporário. Até Menezes foi presidente do PSD e estragou menos do que ele. Corbin.

O partido perdeu a vergonha. O PSD é como o Benfica. O treinador tem que ganhar campeonatos ou não serve para treinador. Eu ainda sou do tempo em que um líder tinha vergonha de perder umas eleições. Quanto mais duas. Corbin,

O partido fala para um eleitorado que não é o dele. Há dois tipos de eleitores: aqueles que contribuem para o orçamento de Estado e aqueles que beneficiam do orçamento de Estado. Sendo que os segundos são, por maioria de razão, bastante mais vocais e ativos. Os primeiros, por falta de motivação, ficam em casa. Rio quer disputar o eleitorado do Partido Socialista, Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português. E, não percebendo isso, ainda cita Sá Carneiro. Continua a discutir os problemas contratuais das de corporações ao invés de falar para o país que fica em casa. Corbin.

O partido está surdo. O país real vota em quem tem a melhor ideia e quem está melhor preparado para ser primeiro-ministro. Tudo o resto é conversa. E nem eu estou convencido que Rui Rio seria melhor primeiro-ministro que António Costa. E não estou com isto a dizer que António Costa seja um bom primeiro-ministro. Corbin.

O partido está sem memória. O grande legado de Rui Rio ao país foi o apoio que deu a Rui Moreira. Isso permitiu que a cidade saísse do marasmo decadente onde o próprio Rui Rio a enfiou. Foi preciso que Rio saísse do poder para o Porto afirmar-se como a grande e vibrante metrópole europeia que hoje é. Corbin nunca foi Mayor — mas se tivesse sido…

Militante de quotas pagas que não votou na segunda volta e que, no tempo em que PSD era um partido realmente plural, foi membro da Comissão Política Nacional.

NOTA DO AUTOR: O companheiro, José Manuel Fernandes, chamou-me a atenção para o facto de ter “surripiado” 42.000 habitantes ao concelho de Vilaverde. Mea culpa. Fiquei a olhar para a freguesia em vez do concelho. Repõe-se a verdade: em Vilaverde tivemos 903 militantes com quotas pagas para uma população de 47.888 habitantes. Só estamos a falar de quase 2% da população. Mas em rigor, acrescente-se também que Vilaverde tinha mais militantes com quotas pagas que, por exemplo, a cidade de Aveiro (558). E quase tantos como Gaia (1062). Em Lisboa, com mais de meio milhão de habitantes, tínhamos 2251 militantes com quotas pagas. 0,4% da população. Podemos dar as voltas que quisermos aos números, mas o ponto continua a ser válido. É olhar para o mapa de resultados e contar o número de concelhos onde os candidatos (um e o outro) ganham com 70% dos votos (ou mais). Se fosse em Lisboa ou no Porto estaríamos a discutir o “caciquismo”. Como não é em Lisboa, nem no Porto, não tem nome. Ao longo dos anos já tentámos todas as formas de expurgar estes fenómenos. Sobram duas: acabar com as diretas ou acabar com as quotas. Abram os cadernos ou regressem aos congressos.

NOTA DO AUTOR II: eu sei, eu sei. Jeremy Corbyn. Com “y” e não “i”. Foi de propósito. Era uma graça.

(Número de habitantes de Vila Verde corrigido às 15h43)