Rádio Observador

Web Summit

#thisisportugal

Autor
2.437

Sendo um cidadão atento, fui a correr descobrir o que é a Web Summit. Pouco depois, regressei a correr ainda mais. De medo. Só alguns dos oradores indígenas bastariam para assustar um herói de guerra.

Sendo um cidadão atento, fui a correr descobrir o que é a Web Summit. Pouco depois, regressei a correr ainda mais. De medo. Só alguns dos oradores indígenas bastariam para assustar um herói de guerra: o dr. Costa (que, ficámos a saber, fala tão bem inglês quanto português), o prof. Marcelo, o eng. Guterres, o sr. Figo, dirigentes do futebol, senhores da banca e ilustres matarruanos em geral. Em suma, política, bola, Estado e a previsível tralha da “influência” e do compadrio. De brinde, o dr. Louçã, cuja presença num evento alegadamente dedicado a ideias novas é comparável a convidar Stephen Hawking para abrilhantar o carnaval de Torres Vedras.

Para cúmulo, tamanha maravilha aconteceu no exacto momento e na exacta cidade onde morrem pessoas por via da “legionella”, onde um ministro anuncia o aumento de IRC e onde, a pedido de corporações, a polícia enxota os condutores da Uber e similares que tentam aproximar-se do aeroporto (sou testemunha interessada: aterrei em Lisboa por motivos que não vêm ao caso e apenas o terceiro carro arriscou apanhar-me). Segundo a propaganda, a Web Summit mostra a nossa abertura à inovação e à iniciativa e ao investimento. A sério? Se no ano que vem resolverem transladar a festança para Caracas, as diferenças serão mínimas. Uma “hashtag” promocional jurava: #thisisportugal. E o pior é que é verdade.

Sobretudo, a moderníssima Web Summit aconteceu no tempo e no lugar em que, a propósito da revolução de 1917, o líder do PCP proclamou, aliás pela enésima vez, as portentosas virtudes da União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas. No Coliseu dos Recreios, pelos vistos também receptivo à comemoração de revoluções sanguinárias e à “stand up comedy”, Jerónimo de Sousa falou e disse. Disse que a URSS transformou a “velha Rússia” num paraíso “altamente desenvolvido, mais industrializado e socialmente mais avançado”. Disse que foi “a pátria dos sovietes” a primeira do mundo “a desenvolver como nenhum outro, direitos sociais fundamentais”. Disse que a URSS teve um “inquestionável papel de força motriz de progresso e da paz a nível mundial”. Disse que o mundo está pior sem a URSS. Disse que “o socialismo é preciso” e é uma “exigência da actualidade e do futuro”. Disse que o capitalismo é um “sistema explorador, opressor, agressivo e predador”, que está “a conduzir o mundo para a barbárie”. Disse que o fim da URSS nada teve a ver com a Revolução de Outubro e os seus fundadores, e sim com o “modelo de construção do socialismo” que se afastou do “ideal e do projeto comunistas”. Disse que o “combate continua”.

O sr. Jerónimo disse estas doçuras e os “media” reproduziram-nas sem escrúpulos nem escrutínio, como se o sr. Jerónimo tivesse recomendado um restaurante em Évora ou os congratulado os bombeiros voluntários de Coimbra. As “redes sociais”, que se escandalizam diariamente com extraordinárias insignificâncias, não se escandalizaram com o elogio fervoroso do maior ataque organizado à humanidade que a História já registou. Ninguém saiu à rua em protesto. Ninguém estranhou. Ninguém, ou quase ninguém, pensou que os desabafos do sr. Jerónimo, afinal um voto de fé na brutalidade, na fome e no homicídio enquanto métodos de regulação das massas, fugissem da normalidade quotidiana de um regime supostamente democrático. No fundo, o sr. Jerónimo informou os portugueses de que não descansará até que, espero que com nuances, estes sofram o que as incontáveis vítimas do comunismo sofreram e sofrem. E, do alto da sua peculiar apatia, que os leva a envergonhar-se dos “twits” do sr. Trump e a orgulhar-se da miséria que trazem por casa, os portugueses acham bem.

Permitam-me evitar equívocos. Ao contrário dos deuses do sr. Jerónimo e dos fiéis do sr. Jerónimo, nunca passaria pela minha cabeça impedir um sujeito de confessar o que vai na dele. A questão, obviamente, não é o sr. Jerónimo proferir insanidades, mas a recepção que as insanidades suscitam. Em sociedades civilizadas, o louvor de genocídios merece repulsa, sarcasmo ou pena do maluquinho que assim se exibe em público. Em Portugal, homenagear psicopatas integra a categoria das notícias “habituais”, a título de opinião discutível ou, quiçá, esclarecida.

De resto, o sr. Jerónimo não é um maluquinho, ou pelo menos um maluquinho comum. É o chefe do terceiro ou quarto partido nacional, o qual rivaliza com outro (?) partido leninista nos votos, nos deputados, na demência e na ascendência sobre o bando que, descarada e oficialmente, finge governar-nos. Se se tratasse de um lunático com bombo às voltas ao coreto – e fosse tratado em conformidade –, a deplorável figura a que o sr. Jerónimo se presta podia esgotar-se em si mesma, sem que daí viesse qualquer mal ao mundo. Por azar, a misteriosa respeitabilidade de que o sr. Jerónimo desfruta compromete o país, ridiculariza o país e torna o país cúmplice de uma vasta parte do mal que, durante o último século, o mundo suportou de facto. Uma coisa é certa: a Web Summit é óptima para mostrar ao “estrangeiro” aquilo que somos. E quem quis ver viu que somos isto.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Eleições

A evaporação da democracia /premium

Alberto Gonçalves
1.472

Cantando e rindo, os portugueses marcham para o abismo e só darão por ele quando se esbardalharem lá em baixo. Ou, palpita-me, nem aí. Não seria a primeira vez.  

Inovação

Web Summit e provincianismo

Fernando Pinto Santos
118

Porque é a investigação académica tão desconsiderada em Portugal? Talvez porque moldes ou toalhas não sejam tão glamorosos como uma app com um nome estrangeiro numa conferência com o nome de Summit.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)