O estudo, realizado no fim de 2020, é da Small Business Prices, e avalia o risco para estar em burnout dos trabalhadores dos 26 países da União Europeia, tendo em conta três parâmetros: o índice de felicidade, a média salarial e número de horas de trabalho semanais. Os resultados são alarmantes para Portugal, que se destaca em primeiro lugar, seguido pela Grécia e Letónia.

O burnout foi declarado em 2019, pela Organização Mundial de Saúde, como um fenómeno ocupacional – isto é, que se deve ao trabalho e não a uma condição médica. O burnout refere-se assim ao stress e exaustão causados pelo trabalho, sendo, no entanto, impactado indiretamente pelas várias dimensões da nossa vida, naturalmente.

Em Portugal um trabalhador falta em média até 6,2 dias por ano devido a problemas de saúde psicológica – e os dias em que vamos trabalhar mas a nossa produtividade é a de alguém que está em casa no sofá nem sequer estão aqui contabilizados. Por outro lado, também a empresa fica com a “corda no pescoço”: o stress e o burnout custam em média 3,2 mil milhões de euros por ano às empresas portuguesas, segundo um estudo da Ordem dos Psicólogos.

No entanto, um dos efeitos mais positivos da pandemia da Covid-19 foi o aumento da consciência relativamente à nossa saúde mental. Especificamente, as entidades empregadoras começaram a tomar consciência do papel que assumem na vida e no bem-estar psicológico dos seus trabalhadores (na verdade passamos mais de 1/4 da nossa vida a trabalhar!). As empresas de vários países da União Europeia estão agora a começar a implementar medidas para cuidar da saúde mental dos seus trabalhadores.

Os tipos de abordagem são múltiplos, no entanto destacamos alguns pontos-chave para implementar a mudança nas empresas Portuguesas e reduzir o risco de burnout:

  1. Tudo começa na liderança – toda e qualquer medida de promoção do bem-estar e saúde mental dos colaboradores tem que começar com a mudança do mindset que vem de cima (administração, recursos humanos, gestores de equipas). Uma liderança empática, que se preocupe com os seus trabalhadores e que comunique essa mensagem às suas equipas é meio caminho andado para contrariar esta tendência.
  2. Ações responsáveis e com propósito – é crucial entender o panorama dos trabalhadores, e implementar medidas que realmente façam sentido tendo em conta os seus perfis, demografia e necessidades. Por vezes, medidas “bonitas” não são tudo, e é crucial esclarecer se o propósito da empresa é melhorar a sua imagem ou se é cuidar dos seus trabalhadores (sendo que, na nossa opinião, estas são compatíveis!). É assim importante começar por auscultar os trabalhadores e só depois definir a estratégia a seguir (medidas internas de promoção do bem-estar e saúde mental e/ou contratação de fornecedores de serviços ou produtos especializados na área).
  3. Linguagem reprogramada – no que toca à comunicação interna, a abordagem ao tema é preponderante para promover a adesão às medidas. Numa sociedade em que a saúde mental é ainda um bicho de sete cabeças (ou até oito, quando se trata de saúde mental no trabalho), pautada pelo estigma e negligência, uma linguagem acessível, desempoeirada e humana é uma componente-chave. É essencial transmitir que a saúde mental não é sinónimo de doença, maluquice ou invalidez (e que muito menos terá repercussões ao nível laboral). A saúde mental deverá sim ser encarada pela empresa como algo que é inerente a cada um de nós, assim como a nossa saúde física, afetando todo o nosso bem-estar e qualidade de vida.
  4. Conhecimento é poder – por fim, avaliar o sucesso destas medidas é de elevada importância, de modo a atuar de forma ponderada nas componentes onde os trabalhadores precisam de mais apoio (seja ao nível do ambiente e condições de trabalho, da alimentação saudável, da descontração, da gestão financeira, entre outros).

Terminamos esta partilha com uma convicção: empresas que cuidem dos seus trabalhadores, terão com certeza o reverso da moeda – trabalhadores motivados para cuidar, também eles, da empresa.

Francisca Canais e Rita Maçorano são co-fundadoras da Nevaro (Chief Operations Officer e Chief Executive Officer, respetivamente), uma start-up que nasceu em 2018 na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Fundaram a Nevaro com a missão de mudar o paradigma da saúde mental, combatendo o estigma e capacitando cada um de nós para lidar com a nossa própria saúde mental. No seu dia-a-dia, conjugam o seu background científico (mestres em Engenharia Biomédica), a paixão pelo comportamento e cérebro humano, e o bichinho do empreendedorismo e do querer fazer acontecer, liderando a equipa da Nevaro. São inconformadas por natureza e juntas têm corrido o mundo de mochila às costas para espalhar esta visão que têm de uma sociedade onde saúde mental é apenas Saúde.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.

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