Escrever no dia de Natal não é simples.

A esta altura já nos desejámos, entre todos os conhecidos e amigos, um bom Natal.

A esta altura já respondemos a inúmeros postais de Natal ou postámos e respondemos e mandámos mensagens de Boas Festas.

Já tivemos, para os mais afortunados, uma ceia que nos permitiu juntar alguma família em ambiente mais confinado.

Já provámos bolos e doces e muitos já terão recebido incontáveis presentes.

A esta altura, portanto, estamos cheios de muita coisa, necessária ou não, e carregados de muitas graças.

Gostava, porém, de deixar três notas e ações ainda possíveis neste Natal.

1 Um Natal diferente deveria ser, seguramente, um Natal que nos fizesse pensar mais sobre a essência do homem, sobre a sua natureza e sobre um seu propósito. Um propósito que esteja para além do dia-a-dia e do trabalho que muitos de nós temos. Um propósito que deve impelir-nos à transformação e a sermos melhores hoje do que fomos ontem. Melhores na vida, melhores na alegria, melhores nas amizades, melhores no agradecimento, melhores na afabilidade, melhores até no usufruto, contido e sábio, de tudo quanto temos. Melhores. Melhores não apenas no pensamento, mas também na ação. Este é, pois, um período em que vale a pena escrever umas linhas sobre esta necessidade que devemos sentir, de nos revisitarmos e de conseguirmos centrar-nos no que de melhor temos, em benefício próprio, é verdade, mas mais ainda porque quanto melhores estivermos, então, melhores serão as entregas aos outros.

2 Um Natal numa época diferente e num contexto de grandes desigualdades e assimetrias, disfarçados e agravados por uma pandemia e por um afastamento uns dos outros, de consequências imprevisíveis, não nos deve fazer esquecer, igualmente, a quantidade de instituições que existem como veículos para chegar aos outros. Essas instituições, organizações, grandes e pequenas, funcionam da nossa generosidade e do nosso contributo. É bom dizer, por exemplo, que é fácil, muito fácil, no conforto da nossa sala pegar no telemóvel e preencher um donativo para muitas delas, porquanto muitas delas estão de braços estendidos à nossa espera. À espera de mais uma oferta para entregar a pessoas que passam fome, a pessoas que estão doentes, a pessoas que não têm abrigo, a mães desajudadas e sozinhas, a vítimas de maus-tratos, a tantos e tantos que, por via delas, conseguem um bocadinho de alguma coisa que o nosso dinheiro consegue comprar. Não, não é uma caridadezinha. É uma necessidade de pessoas reais, de doentes reais, de sem-abrigos reais, de pessoas que passam fome e que são reais. Há uma facilidade que todos temos, de pegar no telemóvel e repartir um pouco do que temos e que fará tanto bem a tantos que precisam de nós.

3 Finalmente, uma época e um Natal diferentes deviam atirar-nos para um telefonema a alguém que gostaria de ouvir um pedido de desculpa, a alguém a quem há muito não falamos, mas que ficará surpreendido por nos ouvir, a alguém que entrará em alegria por causa desse nosso telefonema, dessa nossa mensagem, dessa nossa dádiva. Não custa nada, com umas poucas chamadas telefónicas ou mensagens recompomos relações, afirmamos presenças, obliteramos distâncias, construímos pontes e enchemos o coração de alguém que, não esperando, espera por nós.

Por isso, e sem ter grande coisa mais a acrescentar a tudo quanto já escrevi neste texto, resumo e condenso tudo nestas ideias essenciais e simples ou nas três coisas que ainda podemos fazer neste Natal: (1) sermos mais e sermos melhores, revisitando-nos para corrigir o pior e usar o melhor, (2) doarmos a alguma(s) instituição com a facilidade que temos de uso do nosso telemóvel e, já agora, (3) pegarmos nesse mesmo telemóvel e enviarmos uma mensagem de carinho e amizade, ou fazermos um telefonema a alguém que deixámos pelo caminho, mas que sentiria alegria por voltar a ouvir a nossa mensagem ou a nossa voz.

A todos, um bom Natal.