Timor nos anos 90 foi uma causa comum a todos os portugueses. Lembro-me da visita do Bispo Ximenes Belo a Lisboa, do percurso Aeroporto-Salesianos com milhares de pessoas na rua, de um sentimento de justiça, solidariedade e união, como nunca mais revi. O nome Trianon tem o mesmo efeito nos Húngaros.

O Tratado de Trianon foi assinado em 4 de Junho de 1920, no Palácio Petit Trianon, em Versalhes, França. Destinava-se a regular a situação do novo Estado húngaro após a Primeira Guerra Mundial.

Depois da derrota em 1918, foi na confusão e na anarquia que foram redesenhadas as fronteiras da Europa Central no Tratado de Trianon.

Foram criados novos estados (completamente artificiais — a Jugoslávia e a Checoslováquia), que cederam aos mínimos ventos de liberdade. A Hungria perdeu dois terços do seu território e largas parcelas da sua população ficaram além-fronteiras, em novos e recentes países, que tentavam naturalmente impor a sua língua, cultura e, em algumas situações, a religião. Milhões de pessoas ficaram de um dia para o outro cidadãos de novos estados, cuja língua às vezes nem falavam.

Uma tragédia, com grandes implicações na vida das populações que, ao longo destes 100 anos, tiveram que lutar para poder falar a sua língua, ter as suas escolas, etc. Volvidos 100 anos e muitas adversidades, estas minorias resistem pois “não há machado que corte a raiz ao pensamento, não se para o vento”.

Em termos comparativos seria como se Portugal, na sequência de uma guerra, ficasse apenas com a Estremadura, o Ribatejo e as Beiras, devendo todos os habitantes fora deste território escolher no prazo de um ano por que cidadania optavam.

Cidades que foram sede do governo, ficariam capitais de novos estados como aconteceu com Bratislava (equivalente a Évora), o símbolo da defesa e resistência da nação, a Transilvânia ficou na Roménia (equivalente a Bragança), a cidade do grande pintor Munkásy ficou na Rússia e é hoje Ucrânia (a Amarante do Amadeo) e a parte mais a sul e temperada ficou na Jugoslávia.

A geografia política é difícil e às vezes irónica. Timor partilha uma ilha com a Indonésia, mas os Timorenses têm uma identidade própria.

As minorias húngaras que vivem na Áustria, Eslováquia, Ucrânia, Roménia, Sérvia, Eslovénia e Croácia tem uma identidade, religiosa, linguística e cultural própria. Durante os tempos da guerra fria este assunto era tabu e no paraíso socialista não existiam minorias.

O pior da repressão já passou e com a entrada na UE da Roménia, Croácia, Eslovénia e Eslováquia há um quadro jurídico supra estatal que assegura direitos fundamentais, existindo também garantias através de acordos bilaterais.

Há sinais importantes de esperança. A visita do Papa Francisco à Roménia e a Csíksomlyó  (em romeno Miercurea-Ciuc), onde celebrou uma Missa na língua húngara para a minoria católica, que é fundamentalmente húngara, é um sinal de reconhecimento e esperança. Lembro que João Paulo II quis visitar este santuário e nunca o pode fazer. Talvez por isso o presidente da Roménia Klaus Iohannis recebeu este ano o prémio Carlos Magno na cidade de Aix-la-Chapelle ou Aachen alemã, ele próprio nascido na minoria alemã da Roménia.

Na minha memória ficou também, no início dos anos 80, uma Missa no Mosteiro dos Jerónimos pela “Libertação dos povos oprimidos da Hungria e de Timor”, celebrada pelo Padre Kondor com alguns húngaros e alguns timorenses. Uma mistura improvável de povos exilados em Lisboa, de várias raças, origens e hemisférios diferentes a pedir Liberdade, Justiça e Paz …..

Como húngaro e como português não esqueço estas tragédias e por isso, 100 anos volvidos sobre o dia 4 de junho de 1920, ”se outros calam, cantemos nós“.

Lisboa 4-06-2020