Em 2009, antes das eleições europeias desse ano, fui numa viagem de bloggers a Bruxelas a convite do eurodeputado Carlos Coelho. A minha principal ocupação na viagem foi atormentar Duarte Marques, que estava então em Bruxelas e foi organizador e anfitrião da viagem, com as minhas restrições alimentares (estava grávida e provavelmente originei temores noturnos com a ideia de uma grávida morena a perguntar se determinado prato é cozinhado com queijo pasteurizado). Mas nos intervalos das minhas malfeitorias consegui apreender coisas interessantes.

A primeira – muito chocante para as minhas suscetibilidades liberais, sobretudo quando num estado hormonalmente peculiar – foram as proclamações orgulhosamente socialistas dos membros do PPE, que (dizem) agrupa os partidos de centro-direita europeus. Desde Carlos Coelho afirmando com brio que o PSD estava na esquerda do PPE, até o secretário-geral do grupo parlamentar do dito partido proferir as mesmas arengas anticapitalistas com que o candidato do PS às eleições europeias por cá nos fustigava (e Martin Kamp fala português, pelo que nem houve desvios com a tradução), tudo foi feito para que eu concluísse que a existência de direita no parlamento europeu é a mãe de todos os mitos urbanos.

A segunda foi o medo – assumido – de que a crise económica que tinha vindo nas ondas de choque da falência do Lehman Brothers em setembro de 2008 provocasse a ressurreição dos nazismos e fascismos na Europa. Era visível a preocupação com a possibilidade de um fenómeno semelhante a Hitler, que pegou numa Alemanha devastada pela primeira guerra mundial, pela híper inflação da República de Weimar e pela crise mundial a seguir a 1929 e depois foi o que se sabe. E daqui nasceu a recomendação aos países da UE de aumentar controladamente a despesa pública para contrariar os efeitos recessivos.

Não nos detenhamos por agora no facto de a Comissão Europeia ter pedido a políticos irresponsáveis, descontrolados e intrinsecamente despesistas – por alguma razão José Sócrates aparece nas minhas ideias – para gastarem dinheiro que não tinham, aumentando o endividamento dos Estados e provocando mais tarde a crise das dívidas soberanas. Que terminou com a austeridade em passeio pela Europa e em recessão. Iluminemos antes o facto de na União Europeia se terem esquecido do perigo da extrema-esquerda.

Talvez tenham falhado umas aulas de História e outras de Economia e não tenham reparado que os programas económicos dos extremos da esquerda (nos momentos de bonomia em que não insistem na socialização dos meios de produção) e da direita tendem a ser parecidos. A receita económica de Hitler foi parecida à receita de Roosevelt, o santo de altar das políticas económicas da esquerda atuais. (Se quiserem confirmar e não apetecer manuais de economia ou biografias sensaboronas, podem ler o romance Wigs on the Green, de Nancy Mitford, irmã da mulher do líder fascista britânico Oswald Mosley. O livro retrata tão cruelmente os fascistas britânicos que as irmãs cortaram relações por uns tempos, que naquela família as simpatias políticas vinham antes do amor fraterno. Em todo o caso estão lá plasmados os ídolos da British Union of Fascists: Hitler, o sucedâneo ficcional de Mosley e Roosevelt.)

Como nos salões europeus BCBG se insiste em revestir a extrema-esquerda de roupagens respeitáveis, em vez de a enviar para as caves conspirativas marxistas, ofereceram-nos o Syriza. Além da aproximação a um regime de democracia imaculada que é a Rússia, da intenção de gastar dinheiro na compra de armamento a Putin ao mesmo tempo que se exige empréstimos que se declara não serem para pagar, da abertura de uma televisão pública de propaganda, da aliança natural com a extrema-direita, pudemos ainda apreciar os dotes negociais de Varoufakis – que Ricardo Reis descreveu aqui muito bem. Mas a encruzilhada Syriza parece estar temporariamente resolvida.

Nós internamente é que ficámos com um problema com a extrema-esquerda que sequestrou o PS. Vejamos o que defendem. Um exemplo: deixar a economia de um país a definhar cinco meses por irrealismo ideológico e incompetência (para no fim se obter exatamente aquilo que se poderia obter no início) é um ótimo método negocial. Outro: o governo português (que evitou um segundo resgate) é um grupo de sanguinários determinado a empobrecer o país e roubar os rebuçados às criancinhas; o Syriza, que propôs austeridade superior à implementada em Portugal nos anos da troika, é o ícone da defesa do bem-estar das populações. Mais: implementar o acordo com a troika que o PS assinou é ser um lacaio de Merkel, mas negociar esse acordo e aceitar doses massivas de austeridade (PS, Syriza & Cia.) é uma afirmação clara de que a esquerda não se verga perante os credores e barafusta até à morte.

Para os extremistas de esquerda que moram no PS proponho a compra de um cachecol de contrafação (para copiar o de caxemira de Varoufakis e para substituir o keffieh que usavam em memória de Arafat – e vejam lá se não compram o tartan errado) como simbolismo da sua fidelidade extremista. E a seguir deixem os adultos do partido (supondo que ainda há) tentarem ganhar as eleições.