Face a todo o aparato jurídico que os processos de impeachment envolvem, o público é levado a pensar que o mais importante e determinante no sucesso desses processos são as infrações, face à Constituição e ao aparelho jurídico dos EUA, cometidas pelo Presidente Donald Trump.

No entanto, as coisas não são assim tão simples. Se o fossem, talvez a maioria dos Presidentes americanos pudesse ter sido “impeachavel”. Mesmo os seus maiores Presidentes, como seria o caso de Franklin Delano Roosevelt, que sempre deu muito pouca importância aos detalhes Constitucionais e Legislativos, na urgência de fazer as suas grandes reformas.
Na verdade, existem três aspectos determinantes na concretização de um impeachment: o nível de popularidade do Presidente, o apoio que o Presidente tem na máquina do Estado (Central e Estadual) e, por último – e mais importante – o apoio que o Presidente consegue assegurar, por parte das suas bancadas, nas duas Câmaras do Congresso.

Primeiramente, não se pode ignorar que um Presidente com níveis de popularidade muito altos pode fazer, mais ou menos, o que quiser. Um Presidente com níveis de aprovação acima dos 60% dificilmente – ou, arrisco até dizer, nunca – seria afastado por infracções jurídico-constitucionais menores.

Em segundo lugar, pesa o apoio que o Presidente tem na máquina do Estado – seja nas Forças Armadas, nos Serviços de Segurança, Diplomacia, “Directores Gerais”, Governos Estaduais, entre tantas outras estruturas. Um Presidente visto, de forma transversal pelas organizações que o rodeiam, como competente, é um Presidente que também não é facilmente “impeachavel”, sobretudo por “pecadilhos menores”.

Por último, a decisão sobre um impeachment é sempre política. Muito embora os tribunais possam ter alguma influência em determinadas fases do processo, a decisão não cabe a eles.

O juízo final será sempre das duas Câmaras do Congresso e aí, como é evidente, apenas mantendo-se a lealdade total, por parte do partido que o apoia, poderá um Presidente resistir ao processo.

Essa dita lealdade, para além das ligações pessoais, depende sobretudo de dois elementos principais: de como os Senadores e Congressistas veem o seu futuro político em função do apoio ao processo, e, mais importante ainda, de como os grandes financiadores do partido veem esta problemática.

Neste quadro, como fica Trump?

A sua popularidade nunca chegou aos 50%, nem antes nem depois da sua eleição. De facto, a sua popularidade média foi de apenas 40%, tendo variado entre os 35 e os 46%. É de destacar que a popularidade média dos Presidentes dos EUA, nos últimos 60 anos, foi de 53%.

Face a um baixo nível de popularidade, poder-se-ia mesmo falar de impopularidade. Impopularidade essa que só parece menor pela adoração que os mais devotos dedicam a Trump. À sua baixa popularidade acresce o facto de toda a máquina do Estado estar muito “cansada” de Trump, da sua impreparação, arrogância, imprevisibilidade e até das suas infantilidades.Mais ainda, é há muito evidente que razões de ordem jurídica para o impeachment, não faltam.

Perante esta situação, o impeachment de Trump parece estar totalmente nas mãos do partido Republicano. No entanto, até que ponto podem as decisões, tomadas no âmbito interno do partido democrata, vir a ser determinantes no sucesso do impeachment?

Depois de Trump afastado e de um partido desgastado, e independentemente de quem interinamente suceda a Trump, a grande preocupação dos republicados – e, em especial, dos seus financiadores – é a de saber quem é o vencedor das eleições de 2020.

Face aos inúmeros problemas políticos e económicos criados por Trump, julgo que a maioria dos grandes financiadores republicanos não estará muito preocupado com a sua saída, mas estarão sim preocupadíssimos com a possível eleição de um Sanders ou de uma Elizabeth Warren.

Curiosamente, julgo que a concretização, ou não, do afastamento de Trump estará nas mãos dos democratas. O melhor seguro de vida para Trump é a iminência de um vencedor radical nas primárias democratas.

A radicalização do Partido Democrata não inviabilizará apenas o impeachment, como poderá até levar à reeleição de um Presidente impopular, porque o desfecho de um combate entre dois radicais será sempre de resultado imprevisível.

Digo isto, não por achar que não existam virtualidades nos programas de Sanders e Warren. Como eles gostam de dizer, Roosevelt nas suas reformas foi muito mais longe do que aquilo que eles agora propõem, mas, simplesmente, não considero que seja agora o momento para os EUA embarcarem nos processos que propõem.

Nestas condições, o Mundo e os EUA precisam que o Partido Democrata deixe para depois a ideia de nomear um radical. Pode muito bem custar-nos a continuação de Trump, com todos os efeitos catastróficos que implicaria.