A recusa de Donald Trump em aceitar a derrota face a Joe Biden era altamente previsível. Uma reação pré-anunciada durante a campanha eleitoral, mas com antecedentes que remontam à luta que o tinha levado ao poder em 2016.

De facto, Donald Trump conseguiu a nomeação republicana e a posterior vitória sobre Hillary Clinton recorrendo a uma estratégia que Martin Wolf designou como plutopopulista. Um termo que não constitui novidade. Afinal, trata-se tão simplesmente, de uma designação para identificar aquilo que, desde há muito, é conhecido como populismo de elite. Algo que acontece quando a parte da elite que não é governativa decide que estão reunidas as condições para chegar ao poder.

Em 2016, Trump, que fazia parte da elite económica, percebeu que podia tirar proveito da sua imagem de marca e aspirar a integrar a elite política. Por um lado, sabia que Hillary representava uma adversária bem mais fácil de vencer do que Bernie Sanders. Por outro, percebeu que havia uma parte da elite económica disponível para o apoiar, como o multimilionário Robert Mercer que, para além da oferta de cinco milhões, colocou à sua disposição os catalisadores da campanha: Steve Bannon e Kellyanne Conway.

Para vencer Hillary, Trump apresentou-se aos eleitores como alguém disponível para reconduzir os Estados Unidos à grandeza que Obama tinha ofuscado. Para tal, recorreu a uma mescla das várias modalidades de populismo. Assim, serviu-se do populismo socioeconómico ao assumir-se como o representante dos trabalhadores que o sistema tinha deixado para trás. Depois, apoiou-se no populismo identitário ou cultural quando colocou a tónica na construção do resto do muro na fronteira com o México e denegriu publicamente a imagem de imigrantes e refugiados. Finalmente, recorreu ao populismo antissistema para identificar Hillary Clinton com a elite corrupta que era preciso varrer de Washington.

Foi esta estratégia populista que lhe granjeou o apoio de pouco menos de metade dos eleitores e, devido ao sistema eleitoral dos EUA, a cadeira da presidência. Uma estratégia que pareceu querer suavizar no momento inicial, mas a que voltou quase de imediato. Só que, desta vez, apoiando-se noutra modalidade de populismo: o populismo 2.0. O mesmo tipo de populismo que tinha permitido a Gianroberto Casallegio e Beppe Grillo criarem o Movimento 5 Stelle a partir de um blog. Um populismo assente no povo da rede. Daí a circunstância de Trump governar por tweets.

Porém, os quatro anos na Casa Branca não foram suficientes para Trump construir o modelo que é caraterístico dos populistas uma vez no poder. Os Estados Unidos não são a Polónia do Ordem e Liberdade (PiS) ou a Hungria de Orbán e do Fidesz. As instituições norte-americanas estão consolidadas há muito. Exigem a separação de poderes – check and balances – como a regra da vida política. Por isso, impediram que Trump capturasse o poder. Uma circunstância que ajuda a compreender a não-reeleição.

No entanto, a derrota não vai implicar o desaparecimento do trumpismo ou do plutopopulismo. A recusa em assumir a derrota prova isso mesmo. Há que fazer passar a mensagem de que uma gigantesca fraude lhe quer roubar o direito a permanecer na Casa Branca. Mesmo que as provas sejam insuficientes ou inexistentes. O seu eleitorado está recetivo a esse discurso. Trump vai tirar proveito da denúncia que espalhou no momento certo. Sabe que, apesar da derrota, aumentou o número de votos. Agora, como em 2016, quase metade dos eleitores estão consigo. Continuam a ver nele um líder carismático.

Há alguns anos, quando perdeu as eleições, Viktor Orbán recusou-se a passar para a oposição porque, segundo ele, a nação não podia estar na oposição. Uma forma de identificar a nação como o partido que liderava, o Fidesz.

Na conjuntura presente, a estratégia de Trump não se afasta muito daquela que foi protagonizada por Orbán. Uma prova de que o populismo já não se contenta com a imagem criada por Margaret Canovan, ou seja, com a condição de sombra da democracia. O populismo, sobretudo de elite, não verga perante o sistema. Desafia-o e serve-se das suas regras com o intuito de o vir a substituir pelo seu modelo.

Face ao exposto, é seguro que o sistema obrigará Trump a sair da Casa Branca. Só que, para quase meia América, Trump foi despejado ilegalmente e essa ideia vai alimentar o trumpismo. Mesmo depois de Trump sair de cena. A elite encarregar-se-á de criar um novo líder carismático.