Estados Unidos da América

Trump para além do “fogo” e da “fúria”

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Donald Trump vai comemorar o primeiro ano da presidência que nunca deveria ter acontecido. As histórias de "fogo" e de "fúria" não permitem compreender porquê.

Primeiro, não ia ser candidato, não podia ser, ninguém o levava a sério. Foi candidato. Depois, não podia ganhar, era impossível, o mais impopular candidato de sempre. Ganhou. A seguir, não ia durar, um indivíduo desqualificado, seria deposto em semanas. Ainda lá está, ao fim de um ano. Tem sido assim com Donald Trump: não pode ser, é impossível, não vai durar — mas foi, é possível e dura. Agora, há quem espere pelas eleições intercalares do Outono, na expectativa de que os Democratas ganhem o Congresso, ou que a investigação sobre as ligações com a Rússia force Trump a incorrer em alguma forma de obstrução da justiça. Veremos. Enquanto a imprensa faz a contabilidade das suas inexactidões e tenta arranjar um escândalo todos os dias, a economia continua a soprar a seu favor.

Os Democratas não se conformam com Trump. Mas também nunca, nos últimos cinquenta anos, se conformaram com qualquer Republicano na presidência. As diatribes contra Trump seriam, aliás, mais efectivas, não fossem uma repetição de todos os lugares comuns contra todos os presidentes Republicanos (estúpidos, fascistas, racistas, mentirosos, loucos, etc.). Um Republicano só se torna bom depois de deixar de ser presidente, como George W. Bush, que até já é um pintor estimado. Deve dizer-se que os Republicanos têm feito o mesmo aos presidentes do outro lado. Nada disto começou com Trump, nem acabará com ele.

Mas Trump não é, de facto, um presidente como os outros. É um intruso, sem experiência política. Está a tentar evitar deixar-se manietar, quer pelos tarimbeiros do Partido Republicano, quer por aventureiros como Steve Bannon, uma das estrelas populistas de 2016 que não corresponderam às expectativas mais catastrofistas. O caos de “fogo” e de “fúria”, que mantém toda a gente a rodar na sua equipa, serve a Trump para se manter solto. Não se trata apenas de um gosto pessoal de independência, ou da vontade de seguir um plano próprio de governo, que talvez não tenha. Trump foi eleito pelo cepticismo e desprezo do público americano para com a classe política tradicional. O poder de Trump depende, portanto, de continuar, através do folclore das suas transgressões, a representar esse cepticismo e desprezo. Não lhe interessa, por isso, parecer normal, mesmo quando lhe acontece ser.

A esse respeito, alguns Democratas já repararam que o presidente que ia romper com tudo, segue afinal, fora das redes sociais, uma agenda republicana clássica, baixando impostos e povoando os tribunais com juízes conservadores. Republicanos como Victor Davis Hanson começaram a apreciar um presidente suficientemente idiossincrático para não se deixar intimidar pela classe bem-pensante. Só alguém assim, cheio de “fogo” e de “fúria”, poderia reverter a herança estatizante de Obama (geralmente ignorada nas análises europeias). Entre a direita, muita gente parece subscrever isso: até os cristãos conservadores, para horror dos progressistas, se mostram subitamente tolerantes da vida heterodoxa do presidente. Trump é sobretudo impopular entre os eleitores Democratas, como qualquer Republicano teria de ser. A narrativa do “doido” na Casa Branca ou da “revolta populista” é fácil e fica bem. Mas deixa escapar muita coisa, e especialmente a dimensão de “politics as usual” em toda esta história.

Embora ainda haja quem compare Trump a Hitler, o regime americano é o mesmo. O seu governo continua ser o mais sujeito a escrutínio e a contrapesos em todo o mundo. Nada mudou, então? Para o resto do mundo, mudou o que já estava a mudar. Desde Bill Clinton, todos os presidentes americanos parecem, vistos da Europa, “isolacionistas” (Bush antes do 11 de Setembro) ou “virados para o Pacífico” (Obama). O mundo em que vivemos é ainda um mundo americano. Mas os EUA não parecem dispostos a continuar a ser o seu guardião, pelo menos como até agora. Obama, com o seu plano de saúde, aumentou a despesa, e Trump, com a sua reforma fiscal, diminuiu a receita — o que nada augura de bom para grandes compromissos externos. Em 1919, depois da I Guerra Mundial, os políticos americanos renunciaram a um papel mais directo na arrumação do mundo, porque não seria compatível com o seu Estado pequeno. Agora, esse papel pode deixar de ser compatível com o seu Estado grande. Trump, muito atreito a fazer-se o porta voz despudorado do nacionalismo mais egoísta, acrescenta à incerteza. Mas pensar que tudo seria resolvido sem Trump, é apenas a maneira mais patética de não querer ver os problemas.

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