Pediram-me que escrevesse sobre o debate. Já agora deve dizer-se Costa-Seguro ou Seguro-Costa? Em boa verdade devia ser Costa-Seguro pois pelo menos no futebol vai primeiro o nome daquele que joga em casa. E nos estúdios de televisão Costa está em casa enquanto Seguro é sempre o outro.

O debate foi o que foi: um desastre. Não porque se odeiem – e odeiam! – mas sim porque simplesmente nada os separa a não ser as respectivas personalidades. Tal diferença pode ser mais que suficiente para animar um reality show mas quando transposta para a política torna-se um espectáculo insuportável, pelo menos para aqueles que se obstinam em acreditar nas virtudes do debate.

Na verdade esta foi uma campanha em que nada esteve no seu devido lugar e daí o sentimento de confusão que ela gera: para os seus, Costa representa a continuidade com uma linha burguesa quase aristocrática do PS que remonta a Soares. Digamos que Costa é o candidato dos históricos e da história do PS. Mas por ironia essa história e esses históricos em que Soares derrotou Manuel Serra e colocou o PS ao centro estão agora velhos e portanto numa fase revisionista da sua vida e vêem em Costa o homem que pode não só colocar o PS à esquerda, como governar com a esquerda.

Já Seguro, que contesta esses baronatos do PS em que os apelidos de pais passam para filhos e os jornalistas se dividem em amigos e os outros, é apresentado como um aliado da direita e sobretudo desse ódio de estimação dos socráticos colados a Costa: Passos Coelho. E aqui chegamos ao momento mais importante do debate de ontem: aquele em que não se debateu que Portugal pode ir para eleições antecipadamente. Aquele em que até, findo o debate, eles se poderiam ter perguntado naquele tratamento por tu que tornou tudo ainda mais doloroso naquele estúdio da RTP, “tu achas que o Passos se demite?”

Porque eles têm de estar preparados para responder a essa pergunta mesmo que não a formulem em directo e ontem naquele assanhamento de fazer sobressair o que detestam um no outro esqueceram-se disso. Esqueceram-se que Passos Coelho pode não estar disposto a ser frito no fogo da Tecnoforma e pedir a demissão. Esqueceram-se que os portugueses têm de ver num deles o homem que pode substituir Passos. E ontem, quando uma grave crise pode estar a surgir, os portugueses precisavam de ver postura institucional e cabeça fria. No seu afã de se odiar, Costa e e Seguro desperdiçaram uma oportunidade de ouro para combater Passos.

Foi numa grave crise do seu governo, a de 2013, que Passos se impôs. A forma como vai gerir esta crise de 2014 pode ser determinante para o seu futuro político. E não só, como Costa e Seguro bem sabem. Embora às vezes pareçam não se lembrar disso.