Geopolítica

Tucídides: Um clássico na Católica

Autor
  • Daniela Antunes
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Com Tucídides aprendi que a guerra é um mestre severo. Decisões atrozes são vistas como inevitáveis para prevalecer. Torna-se ténue a linha entre o certo e o errado, o bom senso enterrado na decência.

“A História da Guerra do Peloponeso” jazia na minha secretária. Estávamos na primeira semana de fevereiro, e aguardava o início do meu último semestre na Universidade Católica Portuguesa. Os olhos que fixavam o ecrã do portátil não lhe deram muita atenção; repararam, todavia, no volume do livro – um calhamaço de 800 páginas – e num título que aparentava ser enfadonho.

Ainda sem ter folheado, imaginava as descrições detalhadas das várias batalhas que se sucederam entre 431 e 404 a.C, desde a Sicília até à atual Turquia. Supus, ingenuamente, que estivesse recheado de terminologias técnicas sobre armas e táticas. Enfim, um texto inacessível ao leitor comum e apelativo apenas àqueles sabedores da vida militar. Suspirei, e resignei-me ao que aí vinha.

Li as primeiras passagens enquanto aguardava pelo metropolitano em direção à Cidade Universitária. Fiquei impressionada pelo estilo de escrita, recordando o eterno cuidado dos Clássicos com a forma e as palavras utilizadas.  Foi através da leitura que consegui começar a conhecer Tucídides, o general ateniense que perdeu a cidade de Anfípolis na Trácia para Esparta no inverno de 424-423 AC, caíu em desgraça, foi exilado e escreveu “A História da Guerra do Peloponeso.”

E, como sempre que se conhece alguém, é algo morosa a familiarização com as suas manias, os seus tiques, os seus parágrafos e dicotomias. Tantos discursos, nomes, cidades e locais que jamais pensei vir a conhecer. Tomei-o, no fim da sua obra, como um homem criativo, dotado de profunda sensibilidade intelectual face ao turbilhão político que envolveu o mundo helénico do seu tempo.

Tucídides ensinou-me que as guerras não são apenas o somatório das batalhas, mas a confluência dos mais variados agentes. Estiveram em confronto Atenas democrática, profundamente ideológica, e a mais disciplinada e austera oligarquia – Esparta. As causas profundas, como Tucídides as identifica, partiram da inveja e do temor de Esparta e dos seus aliados face ao crescente império de Atenas, cujas trocas comerciais e poderosa frota marítima lhe trouxeram coisas como honra, prestígio, riqueza e poder.

As decisões das duas cidades ao longo da Guerra do Peloponeso foram influenciadas por figuras dotadas de conceções geoestratégicas e caráteres muito próprios. O julgamento a exercer sobre os seus atos dependerá da interpretação do leitor, permitindo o debate e estimulando o pensamento crítico. Dei por mim a admirar generais e políticos pela sua audácia e destreza, caráter e prudência; a desprezar outros pelas suas pérfidas intenções e ambições que transcendem a grandeza do Estado apenas para enaltecer o próprio ser. Aprendi que um mapa revela muito mais do que nomes de cidades – há linhas de comunicação terrestres e marítimas, aliados, inimigos determinados e opções estratégicas influenciadas pela geografia.

Apercebi-me que alguns dos confrontos mais acesos deram-se nas assembleias – aqueles capazes de proferir os mais eloquentes discursos tinham ao seu dispor as ferramentas para dizimar um exército. Descobri que, para muitos, não havia limites morais se for em prol do interesse ou da necessidade. Com Tucídides aprendi que a guerra “é um mestre severo.” Decisões atrozes são vistas como inevitáveis para prevalecer. Torna-se ténue a linha entre o certo e o errado, o bom senso enterrado nos confins da decência.

A dada altura, pareceu-me que, quanto maior fosse a malvadez da ação, mais queriam os homens conotá-la como necessária. A orgia revolucionária na Corcira ou, por exemplo, o massacre de Micalesso ilustra a natureza mais nefasta do homem. Uma cidade esquecida na Beócia (sim, tive de aprender onde fica), Micalesso era como um refúgio da guerra. Naquela manhã, os seus portões estavam abertos. Até que, mercenários trácios de Atenas de regresso a casa, saquearam a cidade e mataram tudo aquilo que mostrasse sinal de vida. Nem as crianças numa escola e as bestas de carga foram poupadas naquela manhã.

A expectativa da glória, a esperança inflamada da vitória dão lugar às maiores tragédias e aos colapsos da civilização. Esta dialética que Tucídides constrói dá aso à reflexão sobre o que constitui, afinal, a natureza humana, explorada até ao limite em circunstâncias extremas. O homem não está em total controlo sobre seu destino – algumas das campanhas militares mais bem-sucedidas foram também aquelas que beneficiaram do acaso, do estado do tempo ou dos erros dos adversários.

Estou a caminho do fim da cadeira de Geopolítica e Geoestratégia no Instituto de Estudos Políticos. Em Atenas, a democracia de Péricles deu lugar à revolução, à oligarquia e à violência. Esparta, com o apoio financeiro e logístico da Pérsia, consegue projetar poder naval no coração do império ateniense. Tucídides, que começa a sua obra com a descrição da pujança ideológica e económica de Atenas, parece apontar para um determinado desfecho. Confesso que em momento algum da minha leitura esperava a vitória de Esparta.

“A História da Guerra do Peloponeso” é realmente um livro indispensável pelas lições políticas e estratégicas que transcendem a época em que foram escritas no final do século V AC. Um dos livros mais discutidos em 2017 foi Destined for War: Can America and China Escape Thucydides Trap? de Graham Allison, professor na Universidade de Harvard. Por volta dos seus 30 anos, Tucídides teve a audácia de começar a escrever uma obra que fosse um legado para as gerações futuras. E eu, que gosto de ler, dou por mim a pensar como é possível escrever um livro assim?

Daniela Antunes é aluna do 3º ano de Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos, Universidade Católica Portuguesa.

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