Estou a ver a série “Unorthodox”, na Netflix. É sobre Esty, uma jovem judia hassídica que foge da sua comunidade, em Nova Iorque. O hassidismo é uma facção ultra-ordodoxa do judaísmo, aquela dos homens com caracolinhos a cair pelas orelhas e que usam um chapéu redondo e grosso, feito de pêlo – como se alguém tivesse atropelado uma família de castores e depois usasse um dos pneus na cabeça. Já as mulheres rapam o cabelo e, no seu lugar, usam uma cabeleira. Os hassídicos são judeus radicais, continuam a cumprir rituais arcaicos e tradições bíblicas, e vivem separados do mundo moderno.

Oprimida pelas regras austeras que dominam todos os aspectos do dia-a-dia, presa num casamento arranjado cujo único objectivo é a procriação de pequenos judeus, Etsy escapa e vai para Berlim. Lá, solta das amarras que a prendiam, tem o primeiro contacto com o mundo exterior. Vemo-la então a infringir uma série de proibições que, desde criança, lhe garantiram serem ordens directas de Deus, legislação divina para sua própria segurança. É engraçada a reacção dela ao vestir umas calças pela primeira vez, a despir-se em público numa praia pela primeira vez, a comer fiambre pela primeira vez. Quando percebe que acaba de ingerir carne de porco, vai a correr para a rua, ampara-se numa uma árvore e prepara-se para vomitar. Como sempre lhe disseram que o porco a podia matar, acha que vai ficar agoniada. Fica genuinamente perplexa quando não acontece nada e percebe que as regras que lhe impingiram não só não têm razão de ser, como a sua transgressão não acarreta a consequência profetizada.

Confesso que ri bastante com a ignorância e ingenuidade desta gente que deixa que a sua vida seja regida por normas primitivas, prescritas por razões sanitárias sensatas na altura (uma das teorias para a proibição do consumo de porco no judaísmo tem que ver com a prevalência no Médio Oriente da triquinose, uma doença causada por um parasita presente na carne dos suínos), depois transformadas em decretos divinos, para serem mais fáceis de fazer obedecer, até se transformarem em tabus inquestionáveis.

Quer dizer, ri bastante, mas só até 4ª feira, que foi quando assisti à conferência de imprensa em que Graça Freitas justificou o fim da limitação da lotação dos aviões porque os passageiros, numa viagem aérea, não olham para o lado, logo o vírus não infecta o vizinho. Aí percebi que somos como os judeus hassídicos. A diferença é que estamos onde eles estavam há 3 mil anos, na altura em que Moisés recebeu a lei no Monte Sinai. Só que, em vez de Moisés, temos a DGS. E, como Moisés também se atrapalhou com algumas regras, que são contraditórias entre si, a DGS também parece não fazer ideia do que anda a prescrever. Tanto diz que não se deve usar máscara, que dá falsa sensação de segurança, como ordena o uso de máscara e ameaça com multas quem prevarica. Tanto diz que a distância social é imprescindível, como afinal é indiferente nos aviões, provavelmente porque o vírus tem medo de voar e não se atreve sequer a tirar o cinto de segurança. Tanto manda esfregar todas superfícies até decapar, como diz que afinal não há problema, o vírus é forrado de Teflon e não pega em lado nenhum. Apesar de tudo, as indicações ditadas a Moisés por uma divindade obsessiva-compulsiva conseguem ser mais coerentes do que as recebidas pela DGS da Organização Mundial de Saúde, o organismo da ONU dedicado a apanhar do ar.

Às tantas, na série, o marido de Etsy vai atrás dela. É acompanhado pelo primo, um homem mais mundano, que sabe funcionar na sociedade exterior. Tanto que até tem um smartphone. Quando o marido de Etsy descobre, pergunta como é possível ele ter um telemóvel com internet, supostamente proibido? “O Rabi deu-me uma dispensa”, é a resposta.

Portanto, as leis que, se quebradas, condenam automaticamente ao inferno, podem afinal ser infringidas, se houver dispensa prévia. No fundo, é o que a nossa Graças Freitas faz: ajuntamentos são perigosíssimos, menos nos aviões, porque têm uma dispensa. Pelos vistos, a Graça Freitas acha que o vírus é como nós e vai obedecer às recomendações da DGS. Se a DGS diz que no avião é para estar quieto, o vírus está quieto. Se isso for verdade, eu preciso é da DGS para industriar os meus filhos antes da próxima viagem, para ver se eles ficam sossegados nos seus lugares e não incomodam os outros passageiros.

Entretanto, há quem já tenha interiorizado as regras e criado uma relação supersticiosa com elas. Acham que são mágicas e que, se não as cumprirem, vai acontecer uma tragédia. É possível que sim. Mas o mais provável é que só lhes aconteça o mesmo que aos judeus quando comem uma sandes mista.