Um amigo, dois amigos, três amigos, quantos amigos estaremos destinados a perder ao longo da vida? E quem, entre nós, estará preparado para tão terrível perda? Não há idade certa para nada e, muito menos, para morrer, mas dói quando partem cedo. E partem sempre cedo demais.

Nunca haveremos de perceber porque é que os bons nos morrem tão depressa. São realmente indecifráveis e grandes os mistérios da vida. Sabemos apenas que a morte prematura ou inesperada é, para sempre, um rasgão no coração.

Novos ou velhos, os amigos que partem deixam-nos um vazio impossível de voltar a preencher. Podemos ter mais, tão bons como eles, e podemos até vir a conhecer outros igualmente queridos, mas cada um é especial. Único e irrepetível. Por isso a despedida nos custa tanto. Quebra-nos. Atravessa todo o nosso mundo interior e trespassa-nos como uma lança fria. Gela-nos.

Mais tarde ou mais cedo todos passaremos por isto e todos nos daremos conta de que perder um amigo é brutal em qualquer idade. Quem vive isso antes dos vinte cai por terra, dobrado ao meio, sem saber o que fazer ou dizer. Se a morte foi causada por um acidente estúpido ou situação evitável agrava-se o sentimento de perda e o luto chega a ser insuportável. Pesa sempre a culpa, mesmo a quem nem sequer é culpado de nada. Custa a certeza de poder ter sido evitado e já não haver nada a fazer.

Se a morte vem por doença, também não há pensamento que sirva de alívio nem consolo por todas as penas e sofrimentos passados. Mesmo quando é anunciada ou de alguma forma desejada, a morte mortifica os que ficam. Somos humanos, não há volta a dar.

A morte de um amigo deixa-nos sem dúvidas perante a certeza da brevidade da vida. Tudo passa tão depressa, tudo é tão efémero que depois do seu último dia percebemos como nos são intoleráveis todos os momentos que desperdiçamos e poderíamos ter aproveitado. Com ele, certamente, mas também com os que temos à nossa volta.

Nenhum instante é tão violento como aquele em que nos apercebemos (ou nos é dada a notícia) da morte dos que amamos. Nesse instante também nós morremos um bocadinho com eles, mesmo sabendo que ficamos, mesmo sabendo que permanecemos e até mesmo quando acreditamos que a morte não é o fim.

Perder um amigo é sentir a terra vazia. É olhar o céu e não perceber quase nada. A morte vem cheia de interrogações, assim como a vida vem cheia de questões e aflições. Quando voltamos do cemitério ou do crematório onde deixamos o nosso amigo tudo nos soa alheio, como que distante, e a própria existência nos parece uma realidade estranhamente diferente do que era até ali.

Perdi bons amigos antes dos vinte e antes dos trinta, mas agora, que já passei dos cinquenta, morrem-me cada vez mais. Nesta idade já perdemos ou começamos a perder muitos dos que mais amamos e, inconscientemente, dávamos por certos na nossa vida. É triste. Perdemos pais e avós, tios e primos, irmãos e cunhados. E amigos com quem contávamos para a velhice. É duro.

O Miguel Roquette morreu na semana passada. Era um homem bom, que passou fazendo o bem. Cheio de amor e humor, atravessou a vida – ler: a saúde e a doença — com uma paciência infinita, uma coerência admirável e um espírito sempre elevado. Eternamente apaixonado pela sua mulher desde há 34 anos, pai e avô muito terno e bem humorado, fez graças com tudo e todos até ao último momento em que esteve consciente.

O seu testemunho era de tal forma contagiante que ninguém lhe era indiferente, dentro e fora de casa, em família, entre amigos e conhecidos, mas também entre desconhecidos, sempre que esteve internado no hospital ou antes, quando frequentava círculos alargados de profissionais, de políticos e cidadãos politicamente empenhados ou de fervorosos adeptos de futebol (era um sportinguista incorrigível, mas sem fundamentalismos).

Dotado de uma paciência rara, tinha palavras sábias e usava argumentos prudentes quando era preciso avaliar situações ou mudar o rumo dos acontecimentos. A sua acção cívica e política marcou todos os que o conheceram e, através do seu exemplo, reforçaram (ou renovaram) a consciência dos valores éticos e humanos.

Bom amigo dos seus amigos, era um autêntico pilar para a sua família nuclear e alargada. Mesmo quem, como eu, não tinha qualquer laço de família sentia-o sempre muito familiar, pois era de uma franqueza, de uma abertura de coração e de uma alegria sem igual. Tudo sempre muito natural, sem o menor artificialismo, com uma capacidade de acolhimento que habitualmente só encontramos na família, quando temos a sorte de ter uma família acolhedora.

Adorado por jovens e crianças, era frequente vê-lo passar com a carrinha cheia de ‘gaiatos’ para irem todos ao campo e se alguém lhe perguntava porque é que levava aquela ‘gaiatada’ toda, respondia com um sorriso.

– Então, se eles querem ir à pesca eu levo-os.

E levava todos os que quisessem ir. Sem perder a paciência nem a bonomia. E lá ia com eles contando-lhes histórias pelo caminho que os faziam rebentar a rir, e lá os ajudava a encontrar minhocas e outras iguarias para os peixes que muitas vezes não chegavam a pescar.

Por tudo isto e muito mais, o Miguel era um amigo com que todos contávamos e de quem todos precisávamos. Morreu cedo demais, como morrem tantos outros que são igualmente bons e fazem tanta falta a tantos.

Será mesmo verdade que morre cedo quem os deuses amam? E quantos amigos estaremos destinados a perder ao longo da vida? Estas e outras perguntas ficarão para sempre resposta. Talvez seja melhor assim.