Há quem defina o ser adulto como a aceitação da imprevisibilidade da vida. Que nesta, nada é expectável. Pior, ou melhor se aceitarmos que assim é, que não se emenda. Scott Peck começa O Caminho Menos Percorrido a afirmar que a vida é difícil. Que a dificuldade da vida é uma grande verdade e que quando a aceitarmos a transcendemos ao ponto de a vida deixar de ser difícil, não porque se torne fácil, mas porque a dificuldade deixa de ter importância.

Este foi um ano difícil para todos. Para dizer a verdade, nem para todos, mas já lá vamos. Foi um ano difícil para a grande maioria. O que não significa que tenha sido necessariamente mau. Até há um ano tínhamos uma série de certezas que se esboroaram. A título de exemplo, Portugal ia construir um novo aeroporto em Lisboa. O turismo era tanto que se considerava que o da Portela não chegava para as encomendas. Havia sinais de que um novo aeroporto podia não ser uma boa ideia, como a tendência para reduzir as deslocações por avião devido às alterações climáticas (atenção que não estou a dizer que há uma relação directa entre as duas – que até pode existir –, mas que essa relação estava a ser posta em prática) e ao desenvolvimento do turismo digital que a pandemia poderá acentuar. Nessa medida, a Covid-19 chegou no momento certo de evitar (por agora) um erro grosseiro. Mas havia outras certezas que se foram desfazendo. Uma dizia respeito à ciência.

À forma como se encarava a ciência. Como algo certo e absoluto. Definitivo. Em tudo contrário à vida, que não se queria imprevisível, menos ainda difícil. Antes de Março de 2020 não se conheciam limites à capacidade humana, embora poucos tivessem usufruído da oportunidade que é a resiliência. Até que na última Primavera a humanidade sentiu um medo que julgara ter guardado dentro de si há muito tempo. Tudo veio à superfície perante um vírus para o qual a ciência não tinha resposta. Algo impensável pois esta devia ser certa, fiável, definitiva. Há quem ainda acredite que a pandemia é o planeta a gritar socorro, fruto das acções do homem, uma crença que nos recorda tempos anteriores à modernidade científica. O que se reaprendeu este ano, e muitos foram recordando ao longos dos meses, foi que a ciência é experimentação e erro. Aprendizagem. O que sabemos foi porque errámos e o que temos foi porque perdemos. Que nada é certo e absoluto. Menos ainda definitivo. É tal qual a vida, imprevisível e sem emenda que não seja superficial e transitória.

2020 foi também um ano de revelações. Ainda em Outubro, um deputado do PS disse preferir Xi Jinping a Donald Trump. A resposta não revela apenas dogmatismo ideológico, mas a incapacidade de transigir, de se ajustar ao menos bom. A inabilidade em perceber que apenas nos EUA Xi Jinping poderia ser melhor que Donald Trump, o que significa que as instituições, a tradição, a cultura democrática, os checks and balances, tudo isso conta, que Trump foi eleito, ia a eleições, que o seu poder se encontra limitado numa Constituição que separa poderes, limitado por outros que também são eleitos e se submetem a escrutínio ao fim de um determinado período de tempo pré-estabelecido. No fundo, que o mundo não é apenas a preto e branco e que Trump na América é melhor que Jinping na China. Por falar do Império do Meio, o livro de Vasco Rato, que saiu este ano, trata um tema difícil de uma forma não absoluta. Elucida-nos porque nos leva a questionar. O fim da ingenuidade face à China (que não é o mesmo que a querer derrotar) foi outra das grandes conquistas deste ano.

O que foi mais interessante em 2020, é que a incerteza que nos esfregou na cara entra em choque frontal com muitos dos discursos políticos e muita da envolvência que nos rodeia e que nos vai atrofiando. À falta de algo útil para dizer, um político que se quer fazer ouvir ofende e diz disparates, tal qual os boys e as girls dos aparelhos partidários atacam e denigrem nas redes sociais na busca de likes que lhes dêem uma fama transitória. Não há meio termo, nem espaço para a transacção que é parte essencial da democracia. Não há tempo para contemporizar, que mais não é que dar tempo ao próprio tempo que tudo cura. Não há tempo nem espaço para não se ser contra nem a favor, para não se ter opinião, para não se concluir, para se perguntar, duvidar, inquirir; para seguir o caminho da ciência. Neste ponto, o ano que termina serviu para alguma coisa porque foi difícil.

Não para todos, como referi em cima. Há quem tenha passado à margem das dificuldades porque há anos que se resguardaram destas. Houve quem se tenha congratulado com o mesmo perante a crise surgida em 2008. O que me apercebo agora é que não mudaram, o quanto a vida lhes passou ao lado. Este foi um ano de nuances, um ano que quebrou a rotina, que abriu novas portas, outras perspectivas, que pôs fim a certos absolutos, que relativizou o que não interessa, que mostrou algo que daqui em diante nos distinguirá uns dos outros.