1 Tem sido um facto constante nesta luta contra a pandemia da covid-19: a impreparação do Governo de António Costa é gritante. Foi assim em janeiro e fevereiro quando o Executivo assobiou para o lado face às notícias que chegavam da China e de Itália. Foi assim em março quando, só após pressão do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e da população, foi instaurado o estado de emergência. Foi assim em maio e junho quando o Governo não soube preparar o terreno para impedir que os nossos principais clientes de turismo nos fechassem as fronteiras na cara quando o país precisava desesperadamente de receitas.

Em vez de competência e resultados, insistiram em vender-nos (aqui com a cumplicidade de Marcelo Rebelo de Sousa) a ladainha do “Vai Ficar Tudo Bem”, do “milagre português” e da final eight da Liga dos Campeões como sendo um prémio para os médicos e enfermeiros, em vez de trabalharem, de estudarem e de se preparem. E agora passamos daquele clima de facilitismo que caracteriza tão bem a esquerda portuguesa em geral (e o PS, em particular) para a censura generalizada da população e a ameaça, qual pau nas mãos de António Costa, do autoritarismo e de um novo estado de emergência que juraram que não iria acontecer.

Há uma evidente e notória desorientação do Governo Costa que só costuma acontecer aos que estão em final de ciclo político.

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António Costa tem esta característica bem portuguesa: a responsabilidade nunca é sua. Lembram-se dos trágicos fogos de 2017? O fogo de Pedrógão Grande deflagrou a 17 de junho e morreram 64 pessoas. Na madrugada de 16 de outubro mais 45 vítimas em fogos no centro do país. Nada de eficiente foi feito pelo Governo nos quatro meses que separaram essas tragédias mas a culpa foi sempre dos outros. No caso, de todos os que votaram no PS em 2015 e repetiram a dose em 2019.

O filme da incompetência socialista repete-se com a crise pandémica. Era claro para todos em maio/junho, quando o país reabriu as portas, que iríamos ter uma segunda vaga com o outono. Centenas de especialistas alertaram para isso, publicaram-se dezenas de trabalhos de fundo a explicar que a segunda vaga da gripe espanhola no início do século passado foi muito mais perigosa do que a primeira mas, ao fim destes meses, temos um Governo surpreendido com a aceleração dos novos contágios, hospitais em stress e o medo e a ansiedade a marcarem os nossos dias.

E pergunta-se: o que fez o Governo de António Costa? O que estiveram a fazer no Ministério da Saúde de Marta Temido e na Direção-Geral de Saúde de Graça Freitas no últimos cinco meses?

Trataram de planear antecipadamente a contratação de médicos e enfermeiros para esta segunda vaga? Reforçaram a sério as brigadas que fazem os inquéritos epidemiológicos que permitem quebrar as cadeias de contágio? Prepararam e equiparam o Serviço Nacional de Saúde para comunicar de forma eficiente com as escolas que tenham casos positivos? Estas são apenas algumas das perguntas que se podem colocar ao Governo e a resposta é negativa para todas.

3 Basta ver que, segundo o Expresso deste sábado, o Ministério da Saúde sabia desde o verão que era necessário reforçar em 45% os quadros das unidades de cuidados intensivos: mais 48 médicos especialistas e 350 enfermeiros. Para quê? Para que o SNS consiga, de facto, ter quadros para as camas extra Covid-19 que será necessárias nos cuidados intensivos em Lisboa e no Porto. E o que foi feito? A contratação de médicos ainda não foi concluída e a dos enfermeiros nem sequer começou.

A grande questão é que estamos a aproximar-nos do limite do número de pacientes para o SNS responder a doentes Covid-19 e não Covid-19. O pico na primeira vaga foi de cerca de 1.500 doentes na semana de 30 de março a 5 de abril. A semana passada já ultrapassamos os 1.120, já há hospitais com ocupação de 100% de camas covid-19 e já sentimos a necessidade de aumentar as camas extra covid.

Com os epidemiologistas a preverem subidas para 3.500/4.000 infetados diários ou até para 6.000 diários, é fácil perceber a gravidade do problema.

Pior: a mesma notícia do Expresso acima citada evidencia que os cuidados intensivos já começaram a fazer uma triagem dos pacientes consoante a capacidade de sobreviver de cada um deles. “É uma boa prática selecionar os doentes. Tenho noção de que muitos doentes nem chegaram a ser propostos [pelos outros serviços], porque não iriam beneficiar da medicina intensiva; ficaram nas enfermarias até morrer. Mesmo quando há camas vazias, não recebemos doentes que não vão ter benefício.(…) Prolongar desnecessariamente a vida de alguém é antiético e até criminoso”, lê-se na resposta dada ao semanário pelo médico João Gouveia, presidente da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos.

Aparentemente, parece que o cenário trágico que nos chegava de Itália em março via televisões já se começou a materializar. E ninguém deu por nada.

É por isso digo que a incompetência do Governo é diretamente proporcional à irresponsabilidade de António Costa em recorrer a habilidades para criar cortinas de fumo que escondam a incompetência do Governo, como aconteceu com a obrigatoriedade de utilizar a app Stayaway Covid.

4 E por que razão é uma cortina de fumo? Primeiro porque o contrato não permite que seja obrigatória — e se for obrigatória, a app pura e simplesmente deixa de existir. Em segundo lugar, os próprios criadores da app dizem que não é tecnicamente possível que a mesma seja obrigatória.

Portanto, a partir destes dois pontos percebe-se facilmente que António Costa voltou a fazer mais uma das suas habilidades: criou um debate sem sentido para esconder a incompetência o seu Governo na gestão da pandemia e as negociações próprias de uma telenovela mexicana sobre o Orçamento de Estado.

A reação epidérmica da Opinião Pública, inclusive de grandes apoiantes de António Costa, podia fazer com que a obrigatoriedade da app Stayaway Covid representasse para o PS o mesmo que a revolta da população contra os aumentos da portagem na “Ponte 25 de Abril” em 1994 representou para Cavaco Silva: um ponto de viragem incontornável em direção à saída do poder. Mas não acredito que Costa vá cometer o mesmo erro. Muito provavelmente irá recuar, como Luís Marques Mendes antecipou este domingo na SIC.

5 Pelo meio, temos a novela mexicana, episódio 6, marcada pela indefinição de quem aprova o Orçamento de Estado para 2021. O Bloco e o PCP, que colocam cada vez mais entraves à viabilização da lei orçamental, já perceberam que têm de começar a descolar do Governo. Sob pena de serem contaminados pelo desgaste político que António Costa está a sofrer.

Portanto, caro leitor, o cenário não é propriamente brilhante.

Escrevi aqui em Maio, quando Costa atingiu máximos de popularidade, que os socialistas deveriam conter a excitação que então sentiram. Em, primeiro lugar, porque tal resultado seria naturalmente transitório e devia-se a um sentimento de “união em torno da bandeira” — um momento em que a comunidade se une em torno do líder para enfrentar uma crise grave. Esse sentimento corre o risco de desvanecer-se se os líderes políticos não encontrarem soluções para as crises que levam à tal “união em torno da bandeira”.

É precisamente isso que poderá acontecer a António Costa — muito mais se o líder do PS não assumir as suas responsabilidades na estratégia falhada até agora. Um líder, muito mais um líder político, é sempre o principal responsável quando a sua estratégia revela incompetência, desorientação e, acima de tudo, ineficácia.

Cheira a fim de festa.

Texto alterado às 12h20m