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Que saiba, há duas óperas escritas por compositores célebres que têm por tema a história de Portugal. Donizetti escreveu um Dom Sébastien, Roi du Portugal. Foi a sua última ópera. Depois enlouqueceu e foi internado num asilo. Meyerbeer compôs L’Africaine (sobre Vasco da Gama). Também foi a sua última ópera. Morreu subitamente um dia a seguir ter completado a cópia da partitura. Algo me diz que há mais do que coincidência nisto. É verdade que a última ópera de Rossini foi sobre um herói suíço. Mas foi a última porque já estava rico e se queria dedicar à culinária e outros prazeres. Viveu ainda muito tempo. Não, Portugal é mesmo capaz de dar azar. No fundo, não há ninguém que não pense, por uma vez ou outra, que Portugal é um azar.

Hoje em dia, pelo menos, tende a sê-lo. Vivemos numa situação esquizofrénica em que o plano do discurso e o plano da realidade são quase perfeitamente incompatíveis. E, como temos de viver em contacto com os dois, a não ser que, por amor à natureza ou outra razão, nos façamos eremitas numa montanha, a vida é toda ela, por um lado, ordem feita de expectativas satisfeitas, e toda ela, por outro lado, desordem que interdita sequer a formulação consistente de expectativas. Tudo é desfasamento e incoincidência.

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