Os olhos entreabrem-se num uivo de lágrimas, acolhido nos braços de quem o conhece e por ele espera e sofre, chega.

Ainda não tendo consciência do amor que o rodeia e sendo incapaz de o retribuir, dão-lhe o seu nome, o nome que muitas dúvidas suscitou, que agora deixa feliz quem sempre o desejou e com uma mágoa passageira os que outro preferiam.

Sofrendo os efeitos de um tempo que ainda não teme ou sequer compreende, rapidamente esquece o aconchego maternal do período lactente, os tempos em que gatinhava perdem cor nas suas memórias, aprendeu a soprar as velas que se vão amontoando e a cada passo dado o seu mundo vai-se expandindo e a inocência vai-se perdendo.

A mochila pesa-lhe nas costas, chegado à sala de aula, não vê a hora de mais um intervalo, fazer girar a bola, correr suado até ao triste toque de regresso. Os amigos ocupam papeis que outrora foram dos pais, nas confidências dos amores e das tristezas, na partilha das traquinices, e no amparo das emoções, tudo continua tão distante, tão eterno.

Hoje os pais, seus heróis em tempos, parecem-lhe velhas e antiquadas figuras que jamais o compreenderão. É um adolescente, sabe da sua vida, sofre com as suas angústias, tudo se assemelha fatal e excessivamente importante neste momento.

Está na hora de decidir o que fazer da sua vida, os pais incentivam-no a prosseguir os estudos, assente nesta vontade, nas suas ambições e nas expectativas sociais que o rodeiam, assim faz.

Agora, é um estudante universitário com tudo o que isso representa, acumula memórias como nunca, vive no limite, nunca estudou tanto, nunca conheceu tantas pessoas, nunca se perdeu e simultaneamente se encontrou tanto. De repente, tudo acabou! Ficam as amizades, as memórias vivas das noites perdidas, da boémia e do sacrifício dos estudos.

Por fim chega uma resposta positiva aos currículos enviados, o seu primeiro emprego. As notícias confirmam-se e a vida não é simples, as despesas, as obrigações tudo se acumula. Hoje vê a sua ingenuidade de outrora, que boa era a casa dos pais!

De facto desta vez as coisas são diferentes, são sérias, nunca esperou que tudo se tornasse tão simples, que preterir os seus interesses em detrimento de alguém o realizasse deste modo. Partilham uma casa, mas acima de tudo partilham emoções. Vão casar é oficial, toda a família se alegra com as novidades.

– É a cara do pai! Dizem as tias. Neste ritual quase tradicional todos procuram semelhanças familiares nas feições do pirralho, torna-se quase um concurso em sua honra.

A vida mudou por completo, tem um filho, descobre um sentimento diferente, compreende, talvez pela primeira vez, o amor dos seus pais, repete os seus ensinamentos que agora vê como estavam certos.

Numa comunhão de vontades o seu filho vai crescendo, amparado nos valores que os pais lhe transmitem, no carinho incondicional dos avós e nos ensinamentos que a escola e os amigos lhe trazem anos após ano.

A efemeridade da vida ganha outro significado, os cabelos agrisalham, as costas doem, o seu filho já trabalha, tudo parece estar mais calmo e solitário. As paredes rabiscadas e sujas das mãos de criança hoje estão limpas, desprovidas da alegria e do movimento de outros tempos. Os pais, ontem eternos, hoje definham e murcham aos seus olhos, num ritmo galopante e ininterrupto que o desassossega.

Entra na casa outrora quente e preenchida, onde a sua cândida figura era sol, na casa onde se sentava num trono invisível que agora apenas nas suas memórias existe. Tudo é diferente, hoje cuida dos que de si cuidaram, os papeis inverteram-se teme o tempo, teme a perda, vê que nunca poderá pagar a sua dívida.

Não a pagou, vê desaparecer os que o viram nascer, esmorecem os resquícios da sua inocência, apagam-se as velas uma última vez. O filho, tornou-se pai, e agora avô, viveu as camadas da vida adiando inconscientemente a sua compreensão, revê nos netos a sua infância, redobra o seu amor, concentra todas as suas ambições na sua felicidade.

Hoje é velho, tudo se compreende melhor, as perdas, a infância, os remotos sorrisos inocentes, a vivacidade da adolescência, os dilemas dos seus pais, o carinho sufocante dos seus avós, os medos e as preocupações, a vida.

Ninguém o esquecerá, nos retratos pela casa dos filhos e dos netos, são contadas as histórias, do Homem, do pai, do avô. Um dia a efemeridade da vida cruzará as estradas dos seus netos e nesse momento perceberão que o avô foi também neto, filho, pai, foi também a criança inconsciente, o adolescente irreverente e, por muito que não se saiba de imediato, tudo isto foi ontem apenas.

Num fio muito franzino e delicado vai-se desenrolando a vida, ensarilhando-se e desensarilhando-se vai adquirindo formas, das mais belas às mais grosseiras. Pouco a pouco vamos percebendo que este fio nos envolve e que, mais tarde ou mais cedo, nos revestirá por completo. Porém não deixamos de poder escolher a sua cor, as formas que vai compondo e de apreciar a beleza do seu enredo.

Em escassas linhas espelha-se uma vida tão preenchida quanto esta, uma trama que nos parecia eterna e duradoura num ápice esmoreceu.

Ontem os olhos entreabriam-se num uivo de lágrimas e tudo parecia começar, hoje fecham-se cansados e tudo termina, nas lágrimas do que não se disse, do que não se fez, na angústia do que não se viveu.