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É intenção deste texto explicitar uma proposta sobre uma possível via de desenvolvimento para o nosso país, num mundo que, após a pandemia que a todos atingiu, exige e exigirá cada vez mais um posicionamento definido, viável e inovador a todas as nações do planeta.

Desde os meus tempos no grupo Vista Alegre, do qual fui administrador e depois CEO e presidente do conselho de administração durante 23 anos, que penso que o Turismo, no sentido mais lato da palavra, deveria ocupar um dos lugares centrais na economia portuguesa. As razões são conhecidas : o clima, a segurança, a beleza natural e a simpatia dos Portugueses são evidentes.

Existem, porém, carências nacionais que também justificam a opção estratégica pelo Turismo: a falta de tradição industrial quando comparada com a dos países do Norte e Centro da Europa, a inexistência de cultura de grandes empresas, a burocracia e também a lentidão da Justiça.

No entanto, as coisas estão a mudar muito rapidamente no mundo actual e a pandemia vai fazer acelerar exponencialmente as novas tendências de desenvolvimento mundial que já estavam em marcha, nomeadamente a digitalização e a sustentabilidade social, económica e ambiental.

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Assim sendo, há que fazer alguma coisa para além de repetir até à exaustão estes princípios, com os quais quase todos nós estamos de acordo.

Há portanto que desenvolver e concretizar projectos relevantes para Portugal, de forma a garantir que teremos crescimento económico e, assim, conseguir uma posição relevante no futuro das nações.

Penso existir uma oportunidade de crescimento para o nosso país, a qual passaria por investir numa visão actual de desenvolvimento, que teria como justificação de fundo as seguintes realidades :

  • O combate urgente às alterações climáticas;
  • A destruição à escala mundial de grandes zonas florestais, savanas, etc., com vista à sua utilização agrícola ou outra;
  • O desaparecimento dos habitats naturais, incluindo os oceanos, aonde vivem milhões de espécies animais, aumentando cada vez mais o número das que se encontram em risco de extinção;
  • A expansão imparável das cidades por todo o mundo;
  • A necessidade urgente de descarbonização à escala mundial, como revelam as notícias recentes no sentido de ressuscitar o acordo de Paris pelos EUA e pela China;
  • O inevitável desenvolvimento da inteligência artificial e o consequente impacto sobre o emprego tradicional.

Tudo isto vai ter consequências  imediatas e exige, portanto, respostas rápidas à escala global e nacional.

E como poderia Portugal posicionar-se de forma inovadora e sustentável neste quadro mundial de emergência, num momento em que começam a surgir propostas internacionais no sentido de criar zonas de conservação da natureza, cuja dimensão se vá aproximando de metade (!) da área do nosso planeta?

Tem que ser um projecto com dimensão, mas realista, focado, mas encaixável na filosofia subjacente à concessão dos novos fundos europeus e, naturalmente, alinhado com os interesses do país.

Sem pôr em causa o turismo tradicional nem os eventuais projectos industriais sustentáveis e rentáveis que possam surgir noutras zonas do país, propunha, por acréscimo, definir um plano plurianual, com vista à criação de uma Grande Reserva Natural a nível europeu a implantar em vastas zonas do interior de Portugal, abrangendo, nomeadamente, partes significativas de Trás-os-Montes e regiões interiores das Beiras e Alentejo, na qual:

  • Algumas zonas seriam destinadas a turismo da natureza;
  • Outras, à caça turística bem gerida;
  • Outras, para ocupação habitacional de muito baixa densidade, centros de saber aplicado e indústrias tecnológicas não-poluentes;
  • Outras ainda, destinadas à instalação de grandes parques eólicos e solares;
  • E, finalmente, deixando livre a maior parcela, na qual se evitaria ao máximo a presença humana.

Este projecto poderia e deveria ainda, pela sua lógica intrínseca, estender-se às regiões limítrofes de Espanha, nomeadamente Castilla-Leon e Extremadura, assumindo, assim, uma natureza transfronteiriça que muito o enriqueceria.

Este tipo de proposta teria, muito provavelmente, boa aceitação em termos de apoio político-financeiro europeu e, simultaneamente, contribuiria para o desenvolvimento tão necessário dessas áreas abandonadas do interior português, cuja falta de aptidão agro-florestal tradicional é sobejamente reconhecida.

Pessoalmente, também não acredito num futuro grande crescimento industrial sustentável e tradicional para o interior Norte e Centro do país, como ficou demonstrado ao longo dos últimos 50 anos. Apesar dos grandes investimentos em vias de comunicação, o interior português foi “drenado” e não “irrigado” como se pretendia. As indústrias tradicionais vão continuar a estabelecer-se na faixa litoral infraestruturada, mesmo com a concessão de apoios estatais para a sua fixação no interior.

Este modelo proposto, de ocupação do território com gestão integrada, teria ainda a vantagem de contribuir para a diminuição do risco de incêndios e não causaria disrupções sociais significativas, uma vez que o fenómeno de desertificação humana e económica é já uma realidade e, portanto, não obrigaria a deslocação dos actuais residentes nem ao encerramento de empresas instaladas nessas áreas. Pelo contrário.

Se se conseguisse ”vender” e fazer vingar este plano junto da Comissão Europeia como um projecto transfronteiriço que beneficiaria toda a Europa em termos climáticos e ambientais, criando um grande “pulmão verde” numa Europa do Sul cada vez mais ameaçada pela desertificação, estou crente que poderia ter um sucesso assinalável.

Certamente que a concretização de um grande projecto como este enfrentaria sempre algumas dificuldades na sua implementação, nomeadamente quanto à disponibilização das grandes áreas necessárias à constituição da referida Grande Reserva(s), bem como quanto à sua articulação com as realidades existentes.

Mas com vontade política e com os meios que vão ser postos à disposição de Portugal pela UE, estou certo que seriam ultrapassáveis.