É a actualização do sonho de Sá Carneiro de “Uma maioria, um Governo, um Presidente”, agora tornado realidade para António Costa. Mas com uma pandemia em vez de uma maioria, o que é muito superior. Como temos constatado, a pandemia proporciona uma espécie de maioria absoluta com esteróides. Sendo que, curiosamente, esta nova maioria é muito mais musculada em virtude daquela que sabemos ser a principal consequência do uso de esteróides: uma embaraçosa falta de, digamos, vigor por parte do líder do maior partido da oposição, Rui Rio.

Por estes dias, António Costa anda de tal modo folgado que, para se manter activo, está a fazer uns biscates como secretário. Por exemplo, há dias assessorou o Presidente da República. O que explica o episódio na Autoeuropa em que o Primeiro-Ministro marcou na agenda de Marcelo Rebelo de Sousa um almoço para o próximo ano, naquele mesmo local. Não só Costa efectuou um bom trabalho de secretariado, como ainda desvendou uma nova medida do Simplex. Já a partir das próximas eleições presidenciais, os portugueses não só não terão o transtorno de se deslocarem ao local de voto para colocar o boletim na urna, como não terão sequer de se preocupar em escolher um candidato, uma vez que António Costa já decretou que Marcelo fará um segundo mandato. Diz que Kim Jong-un não conseguiu esconder a estupefacção: “Ai isso pode-se? E ainda se recebe dinheirinho da Europa? Levem-me já da Coreia do Norte, exijo ir mandar na Suécia do Sul!”, terá dito.

Mas, sendo justo, o Primeiro-Ministro não anda assim tão desocupado. Basta ver a trabalheira que deu a polémica com Mário Centeno acerca do empréstimo de 850 milhões ao Novo Banco. Para encerrar em definitivo o assunto, António Costa optou pela única saída digna de um grande estadista. Apontou o dedo ao Ministro das Finanças e garantiu “Não fui eu, foi aquele menino.” Ou seja, neste breve instante entre estar sossegado e voltar à tranquilidade, o Primeiro-Ministro andou a fingir que não tinha feito rigorosamente nada. É coisa para extenuar um indivíduo.

A vida corre tão plácida para o Governo que já nem uma boa e velha compra de milhões de euros por ajuste directo, feita pela Direcção Geral de Saúde à empresa de João Cordeiro, ex-candidato do PS à Câmara de Cascais, para o fornecimento de máscaras que, vai-se a ver, e são de legalidade duvidosa, causa qualquer sobressalto ao executivo. Talvez porque, ainda que ao observador inexperiente tudo isto tresande a moscambilha, este negócio tenha sido, na verdade, uma medida importantíssima na contenção do coronavírus. Com a generosa maquia amealhada nesta negociata, toda a família Cordeiro poderá adquirir novas habitações, mais arejadas, com áreas mais generosas, permitindo aos elementos do agregado familiar manter maior distanciamento social e contribuindo decisivamente para a contenção da Covid-19.

A propósito de arejamento, a época balnear começa dia 6 de Junho. Eu antecipo ir à praia lá para 16, 17 de Agosto. Acho que nessa altura já terei conseguido ler e decorar o manual com 78 regras que o Governo criou para a utilização das praias. E pensava eu que tirar a carta de pesados de mercadorias com reboque era complicado. Afinal, chegar à areia, descalçar as chanatas, despir a t-shirt, espetar o chapéu, estender a toalha, caminhar até ao mar, imergir o corpo na água, voltar ao areal, secar ao sol, tornar a vestir, recolher o chapéu e regressar a casa tem muito mais que se lhe diga do que eu imaginava. Enfim, há que adoptar novos hábitos. Antigamente ia-se para a praia ler um livro, agora tem de se ler um livro para poder ir à praia.

Isso e instalar a aplicação InfoPraia que, segundo consta, não respeita qualquer política de privacidade. Invasões de privacidade por via electrónica são sem dúvida muito giras, mas os tempos estão mesmo bons é para os clássicos mirones. Agora nem precisam de se esconder nas dunas. Podem ficar a espiolhar as suas vítimas mesmo lá ao pé. E quando os veraneantes furiosos avançarem na sua direcção, serão legalmente repreendidos: “Alto! Pare já aí. 1,5 metros de distância entre banhistas. É a lei.”