Economia

Um guia (pouco) optimista para 2019 /premium

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Aquilo que já nos mostra a saída de 2018 dificulta bastante um exercício de previsões optimistas para 2019. Mas aqui está ele. Com o optimismo possível.

É um ano em que Portugal estará em campanha eleitoral até Outubro. O ano em que o euro cumpre duas décadas. Em que a União Europeia ficará com menos um Estado-membro pela primeira vez na sua história. E o ano em que vamos perceber se as tendências nacionalistas e populistas são conjunturais ou vieram para ficar. Tal como ficaremos a saber se a economia está a entrar numa nova fase de crise ou estes últimos meses foram apenas alarmes falsos. Eis o guia (pouco) optimista para 2019.

A primeira perspectiva optimista é a economia europeia começar a recuperar da queda que está a registar o seu crescimento e a norte-americana manter o seu já longo ciclo de crescimento. A probabilidade de isto acontecer é baixa, especialmente no que à Zona Euro diz respeito. Há dois “epicentros sísmicos” que vêm de trás e que tornam mais provável uma continuação da queda do crescimento.

Um dos epicentros está situado no Reino Unido e chama-se Brexit, votado pelos ingleses em Junho de 2016. Agendado para 29 de Março de 2019, quase três anos depois do voto, neste momento, verdadeiramente, ninguém sabe o que ainda pode acontecer, já que o acordo só será votado em Janeiro. O pior dos cenários é a saída desordenada, o melhor, do ponto de vista puramente económico, seria a realização de outro referendo que desse obviamente como resultado a manutenção do Reino Unido na União Europeia. O que dificilmente acontecerá, o novo referendo, se levarmos em conta os riscos que tem para a credibilidade da democracia.

A saída do Reino Unido da UE é, assim, o cenário mais provável. E o Brexit terá como consequência perdas mais significativas do que a guerra comercial por via da imposição de tarifas como se pode perceber neste artigo de Paul Krugman. (Repare-se que se está a medir apenas o impacto económico e não o político, designadamente a falta que o Reino Unido, com o seu pragmatismo, vai fazer à União Europeia).

O segundo epicentro, dos abalos que estão a afectar as economias, está obviamente nos Estados Unidos. A guerra comercial, empreendida por Donald Trump, é um dos problemas, não apenas pelos efeitos de redução do bem estar global, mas também pela incerteza constante que coloca no horizonte das empresas e pela ameaça sistemática aos equilíbrios entre os EUA, a Europa, a Rússia e a China.

Como se isso não bastasse, o presidente dos Estados Unidos adicionou, neste final de ano de 2018, mais factores de instabilidade, com os mercados bolsistas norte-americanos a viverem dois dias de montanha russa, primeiro indo ao fundo para depois recuperarem acentuadamente. A instabilidade começou Domingo, quando o secretário do Tesouro norte-americano resolveu revelar que tinha tido uma reunião com os líderes dos grandes bancos, que lhe asseguraram não terem problemas de liquidez. A seguir Donald Trump manifesta confiança no seu secretário de Estado e desconfiança no presidente da Reserva Federal, considerando que está a subir demasiado depressa as taxas de juro. Os mercados foram ao fundo para recuperarem acentuadamente na quarta-feira, depois de terem sido revelados indicadores de vendas recorde nesta época do Natal e após movimentos de compra de fundos de pensões como se pode ler aqui ou aqui.  Estes últimos dias são bastante reveladores da fragilidade dos mercados financeiros norte-americanos, com uma valorização muito apoiada em taxas de juro baixas.

A economia portuguesa consegue ficar imune a estes abalos? Um guia optimista irracional diria que sim. Mas é muitíssimo baixa a probabilidade de Portugal evitar um mergulho da economia quando todos à sua volta se estão a afundar.  “Eu não me iludo e não nos podemos iludir com os números”. A frase do primeiro-ministro António Costa na sua mensagem de Natal deste ano pode ser apenas política pura – para moderar as reivindicações que vêm fundamentalmente dos partidos que apoiam o seu Governo –, mas pode igualmente ser entendida como uma forma de pilotar as expectativas, neste caso no sentido de moderar optimismos.

O abrandamento da actividade económica em Portugal vai expor de forma ainda mais dramática o estado de austeridade em que vive o Estado. O problema das finanças públicas não foi estruturalmente resolvido, não se fez absolutamente nada nestes já mais de três anos para reestruturar o Estado. Recuperou-se a dinâmica anterior da despesa com pessoal e de pensões, alterou-se a distribuição da carga fiscal – aumentado o peso dos impostos indirectos, que sobrecarregam os rendimentos mais baixos, e reduzindo os directos – e apertou-se nas despesas de funcionamento e de investimento. Obviamente que este caminho vai dar a um beco sem outra saída que não seja a austeridade explícita, assim que a economia começar a abrandar. O primeiro-ministro e o ministro das Finanças têm de saber isso e só podem estar preocupados, especialmente se o abrandamento da economia for visível antes das eleições.

O longo período de campanha eleitoral que vamos viver em 2019 é favorável a políticas económicas necessárias, mas impopulares? Claro que não, todos o sabemos. Mas a realidade pode obrigar o Governo a ser menos generoso do que gostaria, em pleno ano de eleições em que o PS tenta atingir a maioria absoluta. A guerra com os professores é um exemplo. Mas se a economia começar a abrandar significativamente, o primeiro-ministro poderá dizer que bem nos avisou para não nos iludirmos com os números.

A mochila que já carregamos para 2019 torna bastante difícil a construção de um guia optimista que não pareça irracional. A história recente mostrou-nos, contudo, que mesmo um evento de baixa probabilidade – um cisne negro – pode acontecer. Afinal foi isso que, pela negativa, aconteceu entre 2007 e 2008 gerando a Grande Recessão.

Um cisne negro pela positiva também pode acontecer. A crer nas previsões da numerologia e na astrologia chinesa, o ano de 2019 pode ser bastante melhor do que aquilo que nos mostra a saída de 2018. Dia 5 de Fevereiro de 2019 entraremos no ano chinês do Porco com energia de Terra, o último dos 12 signos chineses. E na numerologia estamos no ano 3. As previsões? São em regra positivas.

Numa era de elevada instabilidade e imprevisibilidade, quem sabe se o que parece impossível não é apenas uma perspectiva de baixa probabilidade que afinal acontece. E as economias reanimam, o Brexit transforma-se em Brenter, Donald Trump abandona a sua política de guerra comercial e os populismos e nacionalismos regridem.

No fim do ano veremos, se 2019 será um cisne negro pela positiva. O guia optimista que aqui se construiu há um ano apenas se aproximou do que realmente aconteceu na manutenção do turismo e no domínio das taxas de juro. Neste momento não é fácil ser optimista.

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