Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

É preciso aprender a ver longe. Porque de uma coisa podemos estar certos: passada, graças à vacina e a outros processos que a medicina vá inventando, a grande fase do confinamento que a todos nos isola de todos, um outro flagelo tomará conta de nós, um outro e já nosso conhecido espectro assolará a Europa e em especial este nosso querido Portugal. Refiro-me ao retorno do turismo de massas, com a sua corte de pequenas catástrofes: a gentrificação, a descaracterização das cidades, a perda de identidade das colectividades, e por aí adiante. Enfim, tudo aquilo que, ainda no ano passado – lembram-se? –, provocava um horror imoderado em grupos de cidadãos que, por todos os processos possíveis, se organizavam para contrariar esse sinistro avatar do neoliberalismo selvagem e que, com a oportuna excepção concedida a si mesmos, subscreveriam de bom grado os propósitos célebres do filósofo Martin Heidegger, segundo o qual o turismo deveria ser proibido (com a eventual excepção dessa forma de turismo que um seu herói de uns anos antes abundantemente praticava: o turismo a passo de ganso).

É urgente, portanto, ir reflectindo em novas formas de resistência que possam contrariar eficazmente o retorno desse horror sem nome que a pandemia nos fez incautamente esquecer. E encontrar heróis populares que simbolizem métodos de luta eficazes e ao alcance de todos, figuras de oprimidos que lutem contra os poderosos, se necessário recorrendo a processos de legalidade duvidosa destinados a extorquir ao inimigo aquilo que pertence ao povo. Lamentavelmente, e ao contrário de certos povos como os ingleses, que desde Robin dos Bosques possuem uma extensa galeria de heróis populares que se dedicam poética e nobremente a esse ramo de actividade, os portugueses – descobri-o há uns tempos – falham clamorosamente no capítulo. Políticos e banqueiros ainda vá lá que vá, para eles ainda há sempre um qualquer lugarzinho no nosso modesto panteão. Agora populares praticamente anónimos não há, ou então contam-se pelos dedos de uma mão. Nem na vigarice o “elevador social” parece por cá funcionar.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.