Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Porrada! Porrada! Porrada! Peço desculpa. Ter-me-ei, eventualmente, deixado levar pelo entusiasmo. Pois se quando eu pensava que os desportos de combate estavam proibidos por causa da excessiva – e dolorosa – proximidade física que proporcionam, eis que o magistrado Rui Fonseca e Castro desafia o director da PSP, Magina da Silva, para uma luta de Mixed Martial Arts, por certo confiante no seu domínio do juiz-jitsu.

Desafio a propósito do qual devo, desde já, corrigir alguns meios de comunicação social, como o Expresso, que apresentaram a refrega desta forma: “Juiz negacionista desafia diretor da PSP para combate de MMA”. Noto aqui uma gritante falta de imparcialidade. Isto porque, se por um lado, é verdade que o magistrado nega a existência de uma pandemia, por outro, não é menos verdade que, tanto quanto sei, Magina da Silva também se negou a confirmar a contenda. Há, portanto, negas de parte a parte.

Ainda que o director da PSP tenha uma boa desculpa para não querer combater. É muito provável que Magina da Silva tenha medo de estragar o calção de licra do fardamento, porque certamente seria obrigado a pagar um calção novo do seu próprio bolso. Bolso que, ainda por cima, não está, por norma, presente nesse mesmo calção de licra.

Mas logo que Magina da Silva aceite o repto de Rui Fonseca e Castro, o próximo passo é a apresentação do combate. E aqui surge um problema bicudo para a organização do evento. Porque esta é a altura do típico momento de tensão, com os contendentes a encostarem a cara um ao outro, enquanto se provocam mutuamente. Nesta fase, o distanciamento físico médio é de cerca de zero centímetros, e invariavelmente há projecção de perdigotos directamente para a glote do adversário. Ou seja, tudo impecável no que toca a Rui Fonseca e Castro, mas Magina da Silva opor-se-ia, de certeza, a esta situação. Portanto, a única hipótese que vejo de viabilizar a apresentação do combate é se Magina da Silva aparecer envergando um daqueles equipamentos de inactivação de explosivos. Não abdicando da máscara cirúrgica, por baixo, para extra-segurança, como é óbvio.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Agora, não há dúvida que Fonseca “Negacionista” e Castro demonstrou grande astúcia ao desafiar Magina “É M-a-g-i-n-a, Com «M»” da Silva para um combate de MMA e não, por exemplo, para um encontro de ténis. É que, no ténis, Fonseca “Negacionista” e Castro corria o risco de perder 6-0, 6-0 ou, como se diz na gíria da modalidade, de levar uma “bicicleta”. Ao passo que no combate de MMA, Fonseca “Negacionista” e Castro levará a bicicleta, uma vez que tem a vitória garantida, e logo nos primeiros instantes da luta. Sim, porque não estou a ver Magina “É M-a-g-i-n-a, Com «M»” da Silva, enquanto agente da autoridade, a querer fazer um único assalto. Quanto mais os cinco assaltos típicos destas pelejas.

Estou é curioso para ver se esta moda pega e se, em breve, não teremos, antes, agentes da autoridade a desafiar magistrados para pancadarias. Ou muito me engano, ou não tarda nada o juiz Ivo Rosa tem convites para combates de MMA até 2037. Tantos devem ser os policias desejosos de chegar a roupa ao pêlo do magistrado Ivo “A Decisão De Deixar Mais Este Indivíduo Sair Em Liberdade Cheira Bastante Mais A Esturro Do Que A” Rosa.

Se bem que, na verdade, os polícias, têm mais que fazer do que desafiar os magistrados. Têm, nomeadamente, que autuar os degenerados, que papam gomas ao ar livre e sandes dentro de veículos. Num combate, sem quartel, contra, não uma, não duas, mas logo três “demias”: a pandemia de COVID, e as epidemias do açúcar e da fast food. Portanto, senhores agentes, esqueçam lá os combates de MMA com magistrados, e toca mas é de fazer mata-leões a cidadãos.