O atual ministro da saúde ainda não apresentou nada que não fosse a reversão de matéria, por sinal ainda pouca, realizada pelos Governos imediatamente antecessores. Está no seu direito e nada seria mais natural do que procurar, aqui e acolá, modificações no rumo que pretenderia imprimir à sua governação.

Ficou-se, para já, pela recuperação da isenção da taxa moderadora de uma única consulta prévia à interrupção voluntária da gravidez – e até foi o Parlamento que assim o determinou – e pela anulação da devolução de exploração, às Misericórdias proprietárias, dos Hospitais de Santo Tirso e São João da Madeira. Não ficou claro onde se situa o benefício, para o erário público, desta mais recente reversão. O resto são promessas, sempre promessas.

O que já não é tão habitual é a preocupação discursiva apenas centrada na marcha à ré e na consequente incapacidade de deslocar o olhar do retrovisor. A vacuidade palavrosa, a que vamos ter de nos habituar, teve o seu maior expoente na encenação que o ministro quis apresentar, por via de um seu representante, na RTP, no passado dia 11.

Na melhor tradição do debate por interposta pessoa, o representante do ministério afirmou algumas coisas espantosas, no meio das inúmeras inverdades facilmente desmontadas pela consulta do enorme acervo documental que o Dr. Paulo Macedo e eu próprio deixámos, incluindo os números de enfermeiros e médicos contratados para o SNS.

O primeiro dislate foi a de que a neurocirurgia nos hospitais privados “é um bluff”! Esta consideração sobre o sector privado e os profissionais que lá trabalham deveria merecer comentário ministerial. O segundo, mais grave, foi a afirmação de que o comparador público dos contratos com hospitais PPP, elaborados e outorgados pelos Governos de José Sócrates, tinham sido concebidos por pessoas do sector privado, então a trabalhar no Ministério da Saúde, as quais teriam posteriormente voltado para empresas da saúde.

Tudo isto ficou gravado. Imagino que o ministro em funções, ex-gestor da PPP de Cascais, deverá ter alguma a coisa dizer sobre isto, até porque o seu trabalho nessa instituição foi certamente meritório e terá decorrido de acordo com os tais contratos que agora um seu representante sugeriu poderem ser ímprobos e, assim o insinuou, elaborados em conúbio.

Pelo meio, percebi que o citado representante aceita tal como eu, que um médico do SNS ainda não ganha o suficiente e fiquei com a esperança, quase diria certeza, de que vamos ser aumentados. Valeu a pena a noite de segunda-feira.

É claro que o ministério de hoje apenas está fixado na estratégia de confrontação com o passado recente e com os ministros de antanho, sem ter sido ainda capaz de apresentar soluções para o presente e propostas inovadoras para o futuro. Aguardemos. No entanto, é certo que a persistência numa política de manipulação da história, na tradição da esquerda que acompanha o governo, não mudará a realidade factual nem desculpará o que não forem capazes de fazer.

No próximo orçamento estarão, sem dúvida, o fim dos “cortes”, os aumentos de dotações para cobrir as melhorias salariais, os horários que passarão a ser de 35h, os pagamentos de suplementos de horas extra com os valores de 2009, os pagamentos de médicos contratados a 42 euros/hora, as carreiras para as profissões que ainda as esperam, todos os lugares que faltam de cuidados continuados e paliativos, os medicamentos inovadores que ansiamos, as USF que queremos, as obras nas urgências, os novos hospitais de que precisamos – incluindo o novo IPO de Lisboa -, enfim, tudo aquilo porque sempre sonhámos num mundo socialista pago com os nossos impostos, ainda por baixar, e à custa de empréstimos… até ao próximo resgate.

Ex-ministro da Saúde