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O século XIX é o que melhor nos retrata. Se uma das características do ser português é adiar a resolução dos problemas, não terá havido momento em que tal seja tão evidente como nessa altura. E o mais interessante é que quando olhamos para essa época damos conta que esse adiamento não foi assumido. Os políticos, a imprensa e os poucos que fora da política e da imprensa se interessavam pela governação e liam jornais, não assumiam que fechavam os olhos ao essencial enquanto discutiam o acessório. O fenómeno tomou proporções tais, que os dramas que Portugal atravessou no século XX foram consequência do adiamento do que era importante no XIX. Dito de outra forma, os Portugueses do século XX viveram as consequências de não se terem ultrapassado os temas que marcaram o século anterior. Do mesmo modo, sofremos actualmente a não resolução do que deveria ter sido tratado há 20 ou 30 anos, tal como os nossos filhos irão passar dificuldades por não enfrentarmos as verdadeiras questões que nos afectam hoje.

Como consequência dessa paralisação (que não equivale a inércia, pois que a actividade política é feroz) temos um Estado tão rígido e irreformável que à mínima alteração se desmorona. O risco é imenso e a solução que se tem encontrado é ainda mais rigidez. Um círculo vicioso semelhante ao que ditou o fim do Estado Novo ou dos Estados comunistas do leste europeu. Também nesses casos pouco ou nada se podia fazer, em pouco ou nada se podia mexer sob risco da derrocada total. Foi, aliás, o que acabou por acontecer. Uma ordem em Berlim mal interpretada por um funcionário, a percepção em Lisboa que o regime não tinha defensores e o que parecia perene acabou sem um tiro, um alarme, um choro; apenas o alívio.

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