Ah pois é, refiro-me ao parlamento português. Mas calma. Não tenciono amesquinhar o orgão de soberania. Algum rigor na leitura deste título. Confirmo que temos um parlamento “sem vergonha” e não um parlamento “sem-vergonha”. O que constituiria, isso sim, acusação grave. E não há vergonha no nosso parlamento porque o Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, proibiu o uso da palavra “vergonha”. Quer dizer, proibir, não proibiu. Isso seria absolutamente inaceitável em democracia. Proibiu apenas André Ventura de utilizar a palavra “vergonha”, porque não aprecia o dito deputado. Vai daí e toca de mandar calar, de forma absolutamente arbitrária, um indivíduo democraticamente eleito para representar milhares de concidadãos. Assim sendo, tudo correctíssimo, senhor Presidente! Terei acabado por amesquinhar um bocadinho o orgão de soberania? Espero que sim, pois trata-se de merecido amesquinhe.

Assistimos, sem dúvida, a um estupendo trabalho de Eduardo Mãos de Ferro Rodrigues, ali, a controlar com pulso firme o discurso de André Ventura. A grande diferença em relação à personagem de Tim Burton, Eduardo Mãos de Tesoura, é que enquanto este construía bonitas esculturas no jardim, Eduardo Mãos de Ferro Rodrigues viu já uma estátua sua ser erigida na sede do Chega. Graças ao Presidente da Assembleia da República, André Ventura acrescentou aos justos epítetos de demagogo e populista o inopinado epíteto de defensor da liberdade de expressão.

Se logo em 2015, quando foi eleito, Ferro Rodrigues exibiu uma estupenda parcialidade, nunca antes vista num Presidente da Assembleia, com esta nova intervenção faz cada vez mais lembrar aqueles jogadores de futebol supersticiosos. Tal como esses atletas optam, no começo de cada partida, por pisar o relvado primeiro com o pé direito, também Ferro Rodrigues tem, no princípio de cada legislatura, um ritual algo semelhante: dar pontapés à direita.

E embora não me pareça que vilipendiar deputados de quem não se gosta faça parte da descrição de funções do Presidente da Assembleia da República, longe de mim insinuar que Ferro Rodrigues não está à altura de desempenhar o cargo de segunda figura do Estado. Muito pelo contrário. Nada mais apropriado para um número dois do que, sistematicamente, fazer o — digamos — número dois cada vez que tem de tomar uma decisão importante.

Enquanto isto, o governo apresentou o orçamento para o próximo ano. A grande novidade é que, pela primeira vez desde o 25 de Abril, Portugal terá um orçamento com excedente. Ou seja, em 2020, Portugal vai dar lucro. Uhu! Se deixo transparecer alguma contenção no meu júbilo, tal deve-se, exclusivamente, ao pequeno pormenor do país só conseguir dar lucro porque a generalidade dos portugueses vai ter fortíssimos prejuízos. Maior carga fiscal de todos os tempos! Uhu!

De facto, não estou tão optimista quanto a 2020 como o governo. Tenho especial receio relativamente à evolução do desemprego. Basta ver o que aconteceu, por estes dias, na RTP. Se até a directora de informação, Maria Flor Pedroso, já perdeu o emprego, ela que é uma jornalista em cujo currículo se destaca o estupendo grau de parentesco que tem com o primeiro-ministro — afinal de contas é prima de António Costa –, o que deve esperar o português comum, que o máximo que pode apresentar em termos curriculares é ter visto António Costa uma vez, ao longe, numa arruada, e não ter tido coragem de lhe fazer uma pergunta não fosse levar um bom banano nas ventas?