Foi numa manhã de junho de 1985, no dia 12, que, em cerimónia de pompa e circunstância, primeiros-ministros e Presidentes de doze países europeus se juntaram no Mosteiro dos Jerónimos para a assinatura do Tratado de Adesão de Portugal às Comunidades Europeias.

O Portugal de então desapareceu para sempre. Era um país jovem – um quarto da população tinha menos de 15 anos -, é hoje um país envelhecido, com mais de 2 milhões de idosos (e menos de 15% de jovens abaixo dos 15 anos). Por cada 100 jovens havia 45 idosos, hoje somos 135 acima dos 65 anos por cada centena abaixo dos 15.

Nos anos 80 havia menos de 1% de população estrangeira, hoje são quase 4%.

Dos quase 3 milhões de famílias, 13% eram unipessoais, hoje esta percentagem dobrou. E havia 8 divórcios em cada 100 casamentos, hoje há 70. Casamentos que, a propósito, eram mais de 85% católicos, actualmente são quase 75% os exclusivamente civis. 10% das crianças nasciam fora do casamento, aproximam-se dos 50%.

Em 1981 doutoraram-se 112 pessoas, em 2013 2688. E havia ainda 18% de analfabetos.

Éramos um país pobre, ainda rural, com 26% da população ocupada no setor primário e apenas 37% no terciário. A relação é agora de 10 para 66%, transformámo-nos num país de serviços (com o setor secundário a cair para 23%, dos 37% de há três décadas).

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O PIB quase duplicou, a preços constantes: estava perto dos 16 mil euros per capita em 2013 (9000 em 1981).

O Portugal de 2015 não reconheceria o Portugal de 1985:

Não havia auto-estradas quase para lado nenhum, hoje são (talvez) de mais; mas já poucos recordam a viagem Lisboa-Porto pela nacional ou os engarrafamentos à entrada da Mimosa, a caminho (ou de regresso) do Algarve. Para levantar dinheiro, os portugueses tinham de fazer fila em bancos com serviços mais ou menos obsoletos, e a saída de dinheiro de Portugal…era limitada (há hoje cerca de 13 mil multibancos espalhados pelo país). Não havia via verde nem turistas aos milhares no Rossio, nem ponte Vasco da Gama para atravessar o rio.

Portugal saía, em 1985, de um rigoroso programa de estabilização adotado em Acordo de 1983 com o Fundo Monetário Internacional (FMI) (não havia troika…). Isso permitira restabelecer algum equilíbrio na Balança de Transações Correntes: ainda assim a inflação andava pelos 20% (a desvalorização era cambial, solução tão quista a muitos dos bons velhos do Restelo da atualidade), o défice acima dos 10%. Milhares de empresas tinham salários em atraso, centenas de milhares de trabalhadores não recebiam o salário a tempo e horas. Era comum, após horas frente às caixas dos bancos, receber um singelo… “ainda não entrou”, às vezes acompanhado de um “desculpe” por parte de um humano funcionário bancário.

O produto real per capita dos portugueses, em 1985, era de cerca de metade da média dos países da Comunidade Europeia. Atualmente é de 78% do PIB da União Europeia (sendo certo que o PIB médio baixou por força da adesão de 18 países desde então, incluindo Portugal e Espanha).

Entretanto, nestes trinta anos, o nosso país participou de um espantoso processo de integração de recursos, libertação de fatores de produção – das mercadorias aos capitais – e desenvolvimento de políticas comuns. Continua a participar no esforço comum (a 19 países) de corrigir os defeitos de uma integração monetária feita ao arrepio das regras do bom senso (e da economia), defeitos esses decorrentes da reiterada preponderância de interesses nacionais egoístas e de uma lógica sobretudo política (o que não é pecado, salvo por ignorar as regras de bom senso que acima referi).

Portugal é um país europeu e foi-o sempre. Fazer parte da União Europeia é tão natural para os portugueses como o foi em tempos abrir os caminhos do futuro pelas ondas do Mar Oceano. O maniqueísmo que hoje preside à discussão sobre a Europa pode ignorar muita coisa, mas não devia ignorar os factos:

Somos hoje melhores. Somos parte de uma União que nos melhora. Participamos de decisões com impacto global que, sem nós, se tomariam na mesma mas… sem nós. Dentro desta integração europeia temos futuro, e até o excesso (de voluntarismo, de dívida, de laxismo) que resultou na crise das dívidas soberanas e no aumento do desequilíbrio dentro da Europa, em detrimento dos países do Sul, está a ser corrigido.

Claro que temos direito de exigir mais: mais responsabilidade às economias excedentárias; mais juízo aos perdulários, como o atual governo grego, que quer sol na eira e chuva no nabal; mais solidariedade europeia. Façamo-lo. Exijamo-lo. Mas tenhamos consciência desta extraordinária oportunidade que é a Europa, a liberdade que nos concede – como cidadãos europeus de pleno direito -, o escudo que representa face às múltiplas ameaças da atualidade.

Recuemos um pouco e observemos este pequeno e belo país na década de 80. Comparemo-lo, com todos os males que conhecemos, com o que hoje somos. E orgulhemo-nos; por uma vez orgulhemo-nos do que somos, de quem somos. Fomos capazes e, se ainda há sofrimento, que há e muito, se ainda há dificuldades e problemas a resolver, resolvamo-los em conjunto, com a força que nos ensinaram os nossos maiores, em conjunto também com os europeus, com quem partilhamos tanto – e desde logo este pequeno e velho continente chamado Europa.

Regressar aos “maravilhosos” anos 80 seria confirmar a frase de George Santayana “aqueles que esquecem os erros do passado estão condenados a repeti-los”.

Celebremos pois o dia 12 de junho de 1985, há 30 anos.

Ps. Permitam-me uma palavra especial para um dos grandes obreiros desse momento, o já falecido Ernâni Rodrigues Lopes. Homem de rigor e visão, muito lhe deve Portugal.

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