Governo

Um propósito nacional /premium

Autor
  • Sebastião Bugalho

A distância do governo a qualquer reforma não parece afugentar votos; antes pelo contrário. Apesar de ter a maior das simpatias pela natural aversão do Homem à mudança, temo que isso seja um problema.

A questão mais urgente deste ciclo eleitoral prematuramente espoletado é esta: o que deixará o governo de António Costa feito em 2019? Não é uma pergunta fácil de responder. Se fossemos fazê-la para o meio da rua, o gaguejar seria certo. Mário Centeno apostaria na «eliminação do défice». Os comentadores de esquerda, que preferem a simplicidade dos simbolismos à realidade dos números, defenderiam «o nascimento da geringonça». Outros não hesitariam em escolher também a «devolução de rendimentos» – por mais que ela tenha sacrificado os serviços públicos que todos usam em detrimento dos funcionários públicos que nem todos são. A redução da dívida, no entanto, não foi descartada. Na Modernização Administrativa, investiu-se convictamente em módulos de democracia participativa – essencial para reforçar a confiança dos cidadãos –, mas isso tem mais a ver com o modo como o Estado é olhado do que com o modo como o Estado olha para si próprio. Nesse capítulo, a introspeção permanece indolente, indisposta e irresponsável. O atual governo não reformou. Respondendo à questão inicial, a verdade é que é um governo de legado curto.

Em que sentido?

Governaré a atividade de gerir mudanças– as auto-induzidas e as exteriormente verificadas; enquanto fazer política é a atividade de conquistar e manter poder. António Costa tem atributos óbvios na segunda atividade (fazer política), mas poucas virtudes na primeira atividade (governar) e é importante distingui-las. Significa isto que, chegado o ciclo eleitoral, esse diagnóstico ganhará relevância. A conquista e a manutenção do poder serão objetivos cumpridos pelo Partido Socialista, sem dúvida. Mas a preparação de mudanças – «reformar» – ficará por fazer. E a generalidade do eleitorado não parece incomodar-se grandemente com o facto, o que explica a inércia do PS em relação àquilo que impediu outrém de concretizar. O segundo governo de Passos, convém recordar, não era temido pelo que tiraria. Era temido pelo que iria mudar. Por outras palavras, um estadista é aquele que faz política para poder governar; não aquele que quer governar para continuar a fazer política. Para futuro, é essa a diferença que conta – ou que deveria contar.

Porém, para o eleitorado português, essa distinção não tem contado como ativo. A distância do atual governo a qualquer reforma não parece afugentar votos; antes pelo contrário. Eu, apesar de ter a maior das simpatias pela natural aversão do Homem à mudança, temo que isso seja um problema. Ou melhor, a consequência de um problema. Nas sociedades democráticas, em que o destino do povo está na sua livre-vontade, as transformações e retificações não se dão na arbitrariedade de um decreto. Há debate, há escrutínio, há responsabilização. Em Portugal, não é diferente. Mas se no fim desta legislatura ficará bem claro que a inércia tem sucesso como tática de governação, é necessário entender porquê. Porque se receia o reformismo e se premeia a imobilidade?

Também não é uma pergunta fácil de responder.

Talvez – e este texto pretende defendê-lo – falte um propósito nacional. Talvez as pessoas precisem de sentir que há a possibilidade de um país melhor do que este. Talvez o fisco deva começar por respeitar cada contribuinte antes de lhe exigir tamanhos sacrifícios. Talvez os nossos políticos devessem promover uma visão nobre e honrada do Estado, em vez de aproveitarem cada nesga da máquina para seu proveito pessoal. Talvez o primeiro-ministro se deva coibir de comparar a entrada de Portugal na 1ª Grande Guerra com a entrada de Portugal na CEE – para não parecer que nunca leu um livro de História. Talvez as instituições se devam dar ao respeito – não confundindo afecto com popularidade.  Talvez faça falta um orgulho por este pedaço de terra. Não um orgulho saudosista, mas um orgulho que faça a mudança valer a pena. Um orgulho que converta, finalmente, a nossa política em serviço público. E esse orgulho – esse propósito nacional – não consta.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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