A questão mais urgente deste ciclo eleitoral prematuramente espoletado é esta: o que deixará o governo de António Costa feito em 2019? Não é uma pergunta fácil de responder. Se fossemos fazê-la para o meio da rua, o gaguejar seria certo. Mário Centeno apostaria na «eliminação do défice». Os comentadores de esquerda, que preferem a simplicidade dos simbolismos à realidade dos números, defenderiam «o nascimento da geringonça». Outros não hesitariam em escolher também a «devolução de rendimentos» – por mais que ela tenha sacrificado os serviços públicos que todos usam em detrimento dos funcionários públicos que nem todos são. A redução da dívida, no entanto, não foi descartada. Na Modernização Administrativa, investiu-se convictamente em módulos de democracia participativa – essencial para reforçar a confiança dos cidadãos –, mas isso tem mais a ver com o modo como o Estado é olhado do que com o modo como o Estado olha para si próprio. Nesse capítulo, a introspeção permanece indolente, indisposta e irresponsável. O atual governo não reformou. Respondendo à questão inicial, a verdade é que é um governo de legado curto.

Em que sentido?

Governaré a atividade de gerir mudanças– as auto-induzidas e as exteriormente verificadas; enquanto fazer política é a atividade de conquistar e manter poder. António Costa tem atributos óbvios na segunda atividade (fazer política), mas poucas virtudes na primeira atividade (governar) e é importante distingui-las. Significa isto que, chegado o ciclo eleitoral, esse diagnóstico ganhará relevância. A conquista e a manutenção do poder serão objetivos cumpridos pelo Partido Socialista, sem dúvida. Mas a preparação de mudanças – «reformar» – ficará por fazer. E a generalidade do eleitorado não parece incomodar-se grandemente com o facto, o que explica a inércia do PS em relação àquilo que impediu outrém de concretizar. O segundo governo de Passos, convém recordar, não era temido pelo que tiraria. Era temido pelo que iria mudar. Por outras palavras, um estadista é aquele que faz política para poder governar; não aquele que quer governar para continuar a fazer política. Para futuro, é essa a diferença que conta – ou que deveria contar.

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