No debate da atualidade, o interminável fluxo de notícias deixa-nos com a sensação que podemos ser “tudólogos”, seres omnipresentes e omniscientes que pelo mundo caminham com a certeza de todos os assuntos dominarem. Sabendo isto, faço por tentar contrariar esta tendência, que elimina o debate e isola qualquer um na arrogância da sua sabedoria, e reservo-me ao direito de não comentar assuntos dos quais pouco ou nada entendo. No entanto, enquanto atual habitante de um corpo regido pelas vontades da sua mente, vejo-me obrigado a comentar o que se passa a nível de saúde mental em Portugal. Não sou psicólogo, nem médico, nem tão pouco profissional de saúde, mas espero que a minha condição seja suficiente para que me seja atribuída alguma credibilidade.

Muito se fala do pouco que se fala da saúde mental. Pouco se fala, de facto, sobre saúde mental. Pragmatismo, precisa-se. Ideias, procuram-se. Porque eu não as tenho, infelizmente. Não preciso de tomar decisões que possam fazer a diferença neste campo, e, por isso, fico mais descansado, mas pouco vejo a acontecer em favor da sensibilização da população a um dos problemas mais comuns da sociedade moderna. Procurando na internet, no site da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, facilmente se descobre que Portugal é 2º na lista de países europeus mais afetados por doenças do foro psiquiátrico. E, ao contrário do que a recente capa da Vogue Portugal sugere, isto não é sinal de loucura de uma grande fatia da população. Uma ideia auto-evidente, a meu ver, e que me entristece por ter que repetir: ser doente mental não é ser maluco. Ser doente mental, além dos problemas que normalmente lhe são associados, é estar deprimido, é ser ansioso, e muito mais. O mesmo site revela que 1 em cada 5 portugueses (22,9% da população, aproximadamente) sofre de doenças do foro psiquiátrico. A capa que referi, infelizmente, é a prova do tabu existente e do pouco que se fala e sabe sobre o assunto.

Também eu, por vezes, me sinto ansioso. Nunca me foi diagnosticado nenhum problema do género, talvez porque a vergonha e insegurança que se criam à volta do tema nunca me tenham permitido procurar ajuda. Não entro, por isso, nos números que apresentei. Mas, muitas vezes, não cumpro com combinações por ter um bichinho na cabeça a dizer “não vás”. Por vezes, não dou a minha opinião por causa do bichinho que me diz “não fales”. Outras vezes, fecho-me em mim graças ao bichinho que me diz que “é melhor assim”. E tenho a certeza que não sou o único a passar pelo mesmo.

Outros poderão falar sobre a agorafobia, sobre a profunda depressão em que se encontram, sobre os ataques de pânico que sofrem, etc. Infelizmente, a própria identidade das doenças mentais em si implica que seja difícil que os seus intervenientes falem sobre elas, mas a ausência praticamente total de testemunhos na praça pública por parte de figuras públicas é algo muito estranho quando se pensa novamente nas percentagens. A sério, que em mais de dois milhões de pessoas a sofrer deste problema em Portugal, não há alguém com plataforma para espalhar a palavra, sensibilizar para a situação, lutar contra a indiferença? O tabu nacional não ajuda, claro, mas são urgentes testemunhos corajosos que ajudem mais pessoas a falar abertamente sobre o abismo em que se encontram. Fica aqui registada a minha ajuda, ainda que pequena e quase insignificante.