As coisas já não ou boas ou más; são boas ou “menos boas”. Na linguagem de todos os dias, a propósito da economia ou, até, na política. O que quer dizer que as coisas más deixaram de existir. Que bom! É claro que teríamos sempre duas hipóteses a propósito das coisas “menos boas”: partirmos do princípio que, aos olhos de quem quer aprender com a experiência, as coisas más podem ser uma fonte inesgotável de aprendizagem, assim uma pessoa se disponha a ter a humildade de reconhecer enganos, erros ou falhanços, tornando-os oportunidades únicas para se crescer; ou haver uma censura generalizada contra as coisas más. Como se elas fossem sinónimo de uma fraqueza tal, aos olhos da vaidade humana, que assumirmos os nossos insucessos – mesmo (como, entretanto, passou a ser generalizado) quando se trata de se assumir, simplesmente, uma gravidez, quando sabemos que ela existe – passou a ser motivo de medo d’as coisas poderem não correr bem. Como se “as coisas” só pudessem ser ou boas ou “menos boas”. Ironicamente, a verdade passou a ser motivo de vergonha. Mas, seja como for, talvez “à cautela”, continuamos a assumir, junto dos nossos filhos, que é feio mentir. O que, nos tempos que correm, também já teve melhores dias. Agora, já não se mente; “falta-se à verdade”. Que é mais urbano. E mais “clean”. Nada de mais, afinal, quando vamos privilegiando a criação de perfis a olhar olhos nos olhos.

As crianças já não são nem “muito envergonhadas” nem “tímidas”. Têm baixa auto-estima. Também já não são, pelo menos por um bocadinho, “mal educadas”; têm “muita energia”. São muito “líderes”. Ou, por mais que se tenham tornado atrevidas, são só “traquinas”. Os adolescentes já não são “inseguros”; andam “desmotivados”. E os adultos já não são “caras de pau”; são pessoas “muito resolvidas”. O mundo mudou para muito melhor; é verdade que sim. Mas custa perceber como, do meio de tantas meias-verdades, conseguiu tamanha proeza. Sobretudo porque a vergonha, que não deixa de ser um precioso factor de crescimento, parece ter-se tornado uma “espécie em vias de extinção” . Ou se “eclipsou”, até, do universo das coisas “menos boas”. Isto é, deixou-se de falar dela! Não, não somos todos uns “sem-vergonha”. (Ao menos, isso…) Passámos, unicamente, a ter vergonha da vergonha. O que é, significativamente, ainda mais trágico.

Ora, a vergonha não é só um abatimento perante a avaliação que outros farão dos nossos actos. Por vezes, a avaliação desqualificante, sobranceira ou altiva dos outros, que pretende envergonhar-nos, é dos gestos mais lisonjeantes que podem existir. Porque nos demonstra o quanto eles sentem necessidade de vincar que somos piores que eles. O que, perante um vaidoso, não há como ser melhor. Merecia, até, um abraço apertado e agradecido. Já a vergonha, quando reconhecemos que renunciámos à verdade, à bondade ou àquilo que, duma forma simplista, sentimos ser “o certo” em benefício “do errado” é um desalento. E um desgosto. Um frio, irreprimível, que atravessa o nosso orgulho e o esmorece. É, sobretudo, o reconhecimento, diante de nós próprios, que ficámos (muito) aquém daquilo que nos orgulha. E a assumpção, humilde, de ao convivermos com essa dor encontrarmos em nós forma de a repararmos, fazendo melhor. A vergonha são como os nossos amores, quando correm mal; nunca se esquecem. São “nódoas difíceis”. Ficam a palpitar dentro de nós. Não tanto para que nos atormentem noite e dia, mas para não nos esquecermos do que somos capazes de fazer quando – num impulso, duma forma irreflectida ou numa análise completamente trapalhona que, teimosamente, levámos por diante – se “liga” uma espécie de “atrapalhador” dentro de nós e “surfamos na maionese”. A vergonha é o contrário de um “espelho mágico”: liga-nos à verdade daquilo que somos. E interpela-nos em relação aquilo que querermos ser. Sem vergonha não somos empáticos, bondosos ou atentos em relação aos outros. Sem vergonha nunca reconhecemos um erro. Não dizemos nem sim nem não; contornarmos a verdade, rendilhamos as palavras, e ficamos por “nins” e por “meias-palavras”. Sem vergonha nunca temos a culpa de coisa nenhuma; somos, na melhor das “hipóteses”, vítimas. Não estamos nem sós nem acompanhados: “postamos”, com fúria, pomos “likes” e temos “seguidores”. Sem vergonha nunca somos nem felizes nem infelizes: somos pessoas “resolvidas”. Não somos nem tranquilos nem audazes; projectamos todo os pequenos “lixos domésticos” no burnout. O mundo sem termos o direito à vergonha – desculpem! – tornou-se num enclave de uma tremenda estupidez.

O que me parece que talvez não se repare, é que a vaidade (ou o narcisismo, se preferirem) só tem a dimensão duma “epidemia atípica”, como tem, porque a vaidade é uma defesa contra a vergonha. A forma vaidosa que, desde muito pequeninos, acarinhamos no comportamento dos nossos filhos, ou exibimos nas nossas casas(!), sempre que concluímos que, diante dos nossos colegas de trabalhos, somos os “heróis mais esclarecidos da repartição” – ou a forma como nos exibimos uns diante dos outros (até, assustadoramente, no amor) – só é possível porque fomos aceitando a vergonha como uma coisa que não cabe no intervalo que vai entre as coisas boas e as “menos boas”.

E, no entanto, os vaidosos – aqueles que fazem questão de sentir que estão acima da vergonha – são uns envergonhados envergonhados. (Não. Não é uma gralha.) A vergonha que se sente multiplicada pela vergonha dela se reconhecer como parte de nós desemboca na vaidade. A “vitória moral” disto tudo acaba por ser simples: por trás de cada vaidoso há um envergonhado muito acanhado. Alguém que confunde “ter vergonha” com “ser vergonha”. O que, em linguagem de adolescente, teria grande hipóteses de terminar num fantástico “‘tou-te a ver!”. Mas isso nunca acontece. Porque os vaidosos nos intimidam; não é? E levam-nos, quase sempre, a ficar envergonhados por não sermos como eles. Quando a vergonha que sentimos, dessas vezes, é, sobretudo, deles (é só deles). Que “vomitam” sobre nós. Sem percebemos, em tempo real, que o estão a fazer.

Num mundo em que tantas produções humanas preciosas são consideradas assim, eu ousaria que propuséssemos a vergonha como “património imaterial da Humanidade”. Porque aquilo que vem da forma como a trabalhamos em nós – que, depois, gera o orgulho, a honra e o brio, a que nunca se chega quando não se tolera a culpa, a mágoa ou os remorsos – é aquilo que nos transforma numa “espécie” capaz de coisas bonitas. Que pode ser aquilo que resulta quando as coisas, na nossa vida, podem ser (livremente) ou boas ou más. E nunca, simplesmente, boas ou “menos boas”. Que alívio! Não é?…