O Porto é uma cidade única no mundo. É uma maneira de ser, um sentimento, uma verdade. É a vontade de resistir, mesmo quando tudo parece perdido. O Porto não é apenas a soma das suas gentes e não basta morar aqui para se perceber a cidade. Aliás, nem sempre foi bem governada e já há quase dez anos que um Movimento nos move para trás. Numas eleições estranhas, quem deu uma terceira hipótese minoritária a Rui Moreira só pode estar profundamente arrependido: da segurança à habitação, do trânsito à ação social, do ambiente à cultura, nada mudou e tudo continuou na calamidade dos consecutivos anos de governação camarária desastrosa.

Passados apenas quatro meses do escrutínio público, a magia aconteceu: uma ex-vereadora socialista chamada Catarina Santos Cunha assumiu um pelouro no executivo do Porto e Rui Moreira ficou com a maioria. Entretanto, já tinha sido adiada a inauguração do cinema Batalha por “falta de matéria-prima” e um dos maiores jornais nacionais fazia uma reportagem: “sem teto pela primeira vez de regresso às ruas: no Porto há cada vez mais sem-abrigo.” Em Setembro lá abriu o mercado do Bolhão, com derrapagens e atrasos na obra segundo a imprensa, depois de quatro anos e cinquenta milhões de euros – sendo os financiamentos comunitários e “vicissitudes várias” a explicarem o inexplicável. No ambiente, o edifício transparente continua no mesmo sítio, o bar do Ourigo também. Sempre o deixa-andar. A única coisa que continuou o seu Movimento no Porto foi a péssima gestão da cidade.

No início do ano letivo, a FAP dizia que 52% dos estudantes não tinham contrato de arrendamento e a verdade é que o problema da habitação tem ido mais fundo a cada mês que passa, sem resposta da Câmara. O emblemático Embaixador foi despejado pelo senhorio, seguindo-se pouco depois o Capitólio, junto aos Paços do Concelho. Quanto à segurança, a PSP avisava no início de Novembro que a Pasteleira Nova e o Cerco nunca tinham estado tão perigosos. Aliás, as notícias sobre problemas graves são cada vez mais comuns: esfaqueamentos na Baixa, o cadáver com sinais de grande violência na rua da Torrinha, o sequestrado obrigado a levantar dinheiro em Esposende, o sem-abrigo a quem atearam fogo, os assaltos sem fim a comerciantes e transeuntes – enfim, a cidade a ferro e fogo. Relativamente ao trânsito, também em Novembro, um jornal sublinhava que o caos batia “recordes” e gerava “alarme“, sendo que outro título dizia que “tanto de manhã como ao fim da tarde” era um “pandemónio.” Ou seja, a própria imprensa tem testemunhado a tragédia sinistra que é a governação camarária e que nada mudou desde as últimas autárquicas.

Simultaneamente, quando no país só se falava das inundações na capital, a arrogância camarária portuense afirmava do alto do seu pedestral que “as cheias de Lisboa não preocupam: a cidade está preparada.” E passadas três semanas a inundação massiva foi o que se viu e nunca se tinha visto – ficámos todos a perceber que o “Nosso Movimento” era afinal o da corrente de águas pelas ruas do Porto. Lembro-me de ver na televisão, não o Rui Moreira, mas uns quantos vereadores a dar a cara. Só voltei a ouvir o presidente da Câmara no dia dezasseis de Janeiro, para dizer que quem não estava a fazer o seu trabalho eram os meteorologistas. Já sobre futebol, em Setembro do ano passado, Moreira não poupava palavras e chamava de “perfeito imbecil” a um jornalista. “Lamentamos que não saiba viver em democracia” dizia o Sindicato dos Jornalistas. Os portuenses e eu não dizemos nada, só sentimos vergonha.

Em quase dez anos de poder, é este o único mérito que reconheço a Rui Moreira: exacerbar paixões futebolísticas, que levou os mais inocentes a simpatizarem com o comentador e a sentirem um dever de lealdade clubístico na altura do voto. Mas, por mais reconhecida que a cidade possa estar a um clube desportivo, o Porto é muito mais do que um jogo da bola. Pela nossa cidade, já os mais pobres e desfavorecidos cavaram trincheiras para fazer face aos invasores. Pela independência, já muito do sangue dos nossos antepassados jorrou nestas nossas ruas. Em cada esquina onde a cidade é vendida a multinacionais, já canhões rebentaram para suster o ataque de tropas estrangeiras. O Porto é uma cidade única no mundo. O tempo passa e os governantes passam e as pessoas passam. Mas o espírito portuense fica, faz parte da terra, do rio e do vento que sopra do mar. O que sempre existiu, permanecerá, mesmo depois de inundações e terremotos. E das atuais cinzas nascerá uma cidade ainda mais forte.

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