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Certamente que o presidente da Comissão Europeia não queria excluir Portugal quando descreveu a União Europeia como indo da Espanha à Bulgária. Um lapso. Não nos devemos preocupar. Acontece com os países pequenos. Claro, mas então, porque é que Jean-Claude Juncker não se esqueceu da Bulgária?

Há lapsos reveladores. Juncker não se esqueceu da Bulgária, porque os antigos protectorados soviéticos da Europa central e oriental são a nova fronteira da União Europeia, o terreno em que Bruxelas define a sua relação de forças com a Rússia de Vladimir Putin. Portugal, neste momento, não faz parte de nenhum desses campos de tensão. Na década de 1980, Portugal, a Espanha e a Grécia foram a fronteira da Europa. A Europa era então a “Europa ocidental”. Nesses anos, nenhum presidente da Comissão Europeia se teria esquecido de Portugal. Mas desde o ano 2000, tudo mudou com o alargamento ao leste e com o peso crescente da Alemanha. Ao ponto de Juncker, em Setembro de 2017, ter feito a Europa começar em Vilar Formoso.

Não estávamos talvez habituados a esta displicência, depois de há quase trinta anos termos sido o aluno favorito de Jacques Delors. Portugal foi um dos fundadores do Euro, e como tal fez parte das dores de cabeça da Comissão Europeia, quando o Euro esteve em causa, entre a bancarrota da Grécia e a intervenção do BCE. A UE, através dos resgates e do banco central, investiu um mar de dinheiro para manter o sul no Euro. Voltá-lo-ia a fazer? É duvidoso.

No entanto, por vontade de Juncker, todos os países da UE serão um dia países da Zona Euro. Não seria essa uma garantia para Portugal? Não. Para um país endividado e pouco competitivo como Portugal, a moeda única tornar-se-ia ainda mais exigente. Primeiro, porque a disciplina financeira, se já era importante, ainda o seria mais numa Zona Euro alargada; segundo, porque o sul da Europa deixaria de representar os mais pobres na união monetária, perdendo esse recurso de chantagem moral; terceiro, porque numa grande Zona Euro, a partida de um país deixaria de ter o aspecto dramático que ainda tinha em 2010, quando uma eventual queda da Grécia foi diagnosticada como o fim do Euro. É preciso aliás não esquecer que depois do Brexit a integração europeia tem uma porta de saída.

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Se um euro-céptico quisesse caricaturar o europeísmo, teria inventado Jean-Claude Juncker. O presidente da comissão pretende agora fazer do Brexit em 2019 o equivalente da unificação alemã em 1990: a ocasião para mais uma arrancada de integração, com todos os países a correrem a uma só velocidade. É um disparate. Juncker parece nada ter aprendido com a fuga para a frente dos anos 90. As suas propostas nem chegam a disfarçar que a saída do Reino Unido foi uma calamidade para a UE, ao acentuar a sua verdadeira natureza como um directório franco-alemão (mais alemão do que francês), rodeado de periferias mais ou menos dispensáveis (é verdade: foi sempre assim, mesmo com o Reino Unido; mas Londres, com a sua força financeira e o seu liberalismo, compensava, de certo modo, o eixo Berlim-Paris, como Varsóvia ou Roma nunca conseguirão, e muito menos Bruxelas).

A Europa não vai mudar com Juncker: já mudou, e profundamente. Para os portugueses, a mensagem é muito clara: uma Europa sem Portugal é perfeitamente imaginável. O que quer dizer que a integração europeia não pode continuar a ser, como tem sido desde a década de 1990, uma razão para adiar os esforços necessários para tornar o país financeiramente menos vulnerável e economicamente mais competitivo. Não convém continuar a confiar nas “transferências” do norte da Europa. Tudo vai passar a ser mais difícil. Seria bom estarmos preparados.