caderno de apontamentos

Uma gestão (in)eficaz de recursos humanos

Autor
  • Helena Rechena
437

Que gestão “eficaz” é esta que procura rentabilizar recursos em agosto, mas que os malbarata duas semanas mais tarde, lesando recursos financeiros do Ministério da Educação e criando injustiças?

Famílias “divorciadas”, centenas de quilómetros percorridos e o desgaste físico daí resultante, pequenas fortunas gastas em portagens, combustível e oficina. Esta é a realidade com que inúmeros professores se confrontam diariamente. É disto que centenas de professores se queixam? É, e é inevitável. O cerne da questão encontra-se, porém, bem a montante. Arriscando-me a tecer uma explicação simplista – por não querer entrar em demasiados pormenores, sob risco de levar o leitor a adormecer face à complexidade técnica dos procedimentos concursais dos professores – o que se passou, no passado dia 25 de agosto, foi um atropelamento seguido de fuga, sem direito a assistência médica.

Nesse dia, e sem que nada o fizesse prever, centenas de professores dos quadros ficariam a saber que, previsivelmente durante quatro anos, ficariam a lecionar a centenas de quilómetros das suas residências. A incredulidade tomou conta de muitos, por se tratar de professores com já uns bons anos de serviço no currículo (10, 15, 20 e até mais) e a perplexidade agudizou-se ao constatarem que nenhum horário incompleto (cuja necessidade havia previamente sido comunicada à tutela) fora atribuído. Terá o Ministério optado – inesperadamente – por atribuir apenas horários completos aos professores dos quadros? Não obstante ser uma decisão que nada faria prever, não seria algo disparatado. Afinal de contas os professores dos quadros auferem o seu salário por inteiro.

Segue-se um período de espera p’ra-ver-no-que-isto-dá. Persistem ainda, no início de setembro, imensos professores dos quadros (tendencialmente com menor graduação que os que tinham já obtido colocação) a aguardar uma colocação para os próximos quatro anos e todos os horários incompletos aguardam igualmente professor. A surpresa das surpresas (ou talvez não) chegaria a 6 de setembro, altura em que é divulgada uma nova lista de colocações. Constata-se, nesse momento, que os horários incompletos já existentes em agosto, mas sonegados aos professores mais graduados dos quadros, já servem, afinal, para professores dos quadros menos graduados. O critério de atribuir exclusivamente horários completos aos professores dos quadros, aplicado em agosto foi, duas semanas mais tarde, completamente ignorado pelo(s) mesmo(s) que em agosto, inesperadamente, o haviam engendrado.

O que significa isto, em termos práticos? Significa que na segunda ronda de colocações, ocorrida já em setembro, os últimos professores dos quadros tiveram à sua disposição um conjunto de horários significativamente maior (já que estavam incluídos, agora sim, não apenas horários completos, mas, também, imensos horários incompletos) que os seus colegas colocados em agosto. Foi esta dualidade de critérios que, grosso modo, arremessou os primeiros professores para bem longe de casa, tendo visto as suas preferências preteridas a favor de professores menos graduados que, isentos de qualquer culpa, acabariam por obter colocações bem mais favoráveis.

Mais grave ainda se pensarmos na alegada “eficiente gestão de recursos”: na mesma data – 6 de setembro – o Ministério colocou professores dos quadros em horários incompletos, contratando, simultânea e desnecessariamente, professores para horários completos que poderiam (e deveriam) ter sido atribuídos a professores dos quadros, já que tal não acarretaria contratações desnecessárias ao já tão depauperado erário público.

Que tipo de gestão “eficaz” é esta que, alegadamente, procura rentabilizar recursos em agosto, mas que paradoxalmente os malbarata duas semanas mais tarde, lesando recursos financeiros do Ministério da Educação e criando injustiças difíceis de digerir entre os lesados? Que tipo de gestão é a que promove concursos de vinculações extraordinários a que apenas podem concorrer professores contratados e os veda a centenas de professores dos quadros, negando-lhes, anos a fio, a possibilidade de aproximação à residência?

Que tipo de gestão é a que, numa cegueira total, gera sentimentos de revolta e desmotivação entre os seus funcionários? O caminho não é por aqui.

Professora e blogger

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
caderno de apontamentos

Seremos livres? /premium

Maurício Brito
890

Os resultados a que chegámos permitem-nos afirmar que a despesa com a recuperação total do tempo de serviço dos professores rondaria os 300 milhões de euros – metade do valor que o governo apresenta.

Educação

Despedir os professores todos

João Pires da Cruz
778

A minha proposta é despedir os professores todos e entregá-los a Bruxelas. A escolha dos professores e a sua gestão deve ser feita pelas escolas; o pagamento dos seus salários deve vir de Bruxelas.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)