Não vejo interesse em discutir as declarações do primeiro-ministro, num momento de informalidade e em off, aos jornalistas do Expresso. Independentemente da legitimidade ou não da sua publicação, o conteúdo espalhou-se e nada tem de surpreendente. Afinal, a experiência da governação sob António Costa já conheceu momentos suficientes de grande tensão social e política para nos mostrar como as reacções do primeiro-ministro apontam sempre responsabilidades para terceiros, tendem a evidenciar insensibilidade social e, por vezes, são até grosseiras – portanto, não há novidade.

O mais interessante deste episódio não é, por isso, a sua exploração política e partidária. O importante está antes na forma como a comunicação social lidou com este caso – aí sim revelador de desequilíbrios e, no mínimo, justificação para uma reflexão sobre o jornalismo e a qualidade da democracia.

A gravação da conversa em off-the-record foi efectuada pelo Expresso (admito que involuntariamente) e difundida pelo Expresso a outros órgãos de comunicação (admito que, novamente, involuntariamente). A estes dois erros do Expresso, somou-se a desorientação dos comunicados, sendo que o jornal demorou a reconhecer inteiramente as suas próprias responsabilidades. Dito isto, é perfeitamente compreensível que a postura do Expresso seja a de que a reprodução dessa gravação em off seja ilegítima, na medida em que a prioridade do Expresso é ir atrás do prejuízo dos erros que cometeu, traindo a confiança de uma fonte e de forma tão estrondosa – gravando a conversa, cortando o vídeo para isolar um trecho prejudicial ao primeiro-ministro e enviando-o a outros órgãos de comunicação social.

O mesmo não é possível afirmar de outros órgãos de comunicação, que não só rejeitaram noticiar o conteúdo dessa gravação como, em certos casos, até tomaram posição contra a publicação da gravação. Foi, por exemplo, o caso do jornal Público, através de editorial do seu director. Devo dizer que subscrevo integralmente os argumentos de princípio trazidos por Manuel Carvalho, mas que a meu ver a sua reflexão tem um ponto-chave em falta, que é precisamente o mais sensível: a aplicação prática desses princípios tem de ser uniforme, isto é, igual para todos os políticos, de modo a que as excepções não se definam em função do nome de quem é “apanhado” em off. Ora, se a publicação de conversas em off de políticos acontece com alguma frequência, o que faz com que algumas dessas publicações sejam legítimas e outras ilegítimas? A resposta tem várias áreas cinzentas e subjectivas – e, por isso, presta-se a vários enviesamentos. Como em todos os temas complexos, é fundamental ter-se bons princípios, mas é na definição das excepções à regra que se mede realmente as prioridades que norteiam as opções editoriais.

Não é necessário pesquisar muito para encontrar a publicação na imprensa portuguesa de declarações comprometedoras em off, com ou sem jornalistas envolvidos na gravação. Se o alvo for Trump, a lista é quase interminável. E, mesmo em Portugal, não faltam situações análogas – uma de que me recordo bem foi contra Vítor Gaspar, há uns anos, com a TVI a gravar e emitir uma conversa privada do então ministro com o seu homólogo alemão, e jornais e comentadores a explorarem o conteúdo, sem hesitações ou contemplações. Se a situação de há dias não envolvesse António Costa, seria o tratamento noticioso idêntico? Talvez sim, talvez não. Mas, objectivamente, há episódios suficientes para afirmar que o respeito pela privacidade dos políticos não é reconhecido de igual forma para todos.

Esta constatação expõe um desafio que é jornalístico, claro, mas também da nossa democracia. Porque as incoerências e inclinações da imprensa a favor ou prejuízo de determinados políticos serve de alimento à descredibilização da comunicação social, condição imprescindível para que o populismo prospere. E porque essas incoerências geram dúvidas legítimas sobre a independência dos órgãos de comunicação social perante os agentes políticos que estão em posição de força. Não estou, de modo algum, a sugerir que, neste episódio com António Costa, se verificou essa cedência ao poder por parte da comunicação social (do Público, que referi acima, ou de outro qualquer). Estou somente a assinalar que a inconsistência com que as declarações em off são geridas alimenta dúvidas que fragilizam a credibilidade da comunicação social e que, sendo esta um pilar da nossa democracia, essas dúvidas se transformam em fissuras no edifício democrático. A imprensa pretende ser livre e forte para combater o populismo? Se sim, se quer ser peça imprescindível de uma democracia saudável e vibrante, então que não apresente princípios para defender uns e demonstre que vale tudo para atacar outros.