Crónica

Uma lista de Verão, de António Costa à Volta à França /premium

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Temos um primeiro-ministro com tendência para a encenação e a graçola. O ridículo e o obsceno convivem bem e ele, honra lhe seja dada, sabe harmonizá-los como ninguém. A plasticina mental é invencível

Com o Verão, um indivíduo arrisca-se a ficar viciado em listas, sejam elas mentais ou, mais prudentemente, escritas. Lista do que obrigatoriamente se tem que fazer antes de férias. Lista do que se leva para férias. Lista do que se vai ler nas férias. E por aí adiante. Isto, mesmo que as férias durem um tempo ridiculamente curto. Convém levar os rituais a sério.

O problema é que o espírito começa a ficar preso a esse modo exclusivo de pensar, a enumeração, que tende consabidamente para o regressivo. Mas uma vez não são vezes e é preciso de vez em quando ceder à conhecida força das circunstâncias. Um passo atrás, para dar depois dois passos à frente, adoptando a fórmula de uma mente prática que deixou  escola. O que se segue é uma cedência em toda a linha ao imperativo das listas. Suponho que é inútil procurar alguma coerência entre os tópicos escolhidos.

António Costa. Temos um primeiro-ministro com tendência para a encenação e para a graçola. Deu-nos a conhecer várias fotografias em que coordena à distância o combate aos fogos em Monchique. O ridículo e o obsceno convivem bem e ele, honra lhe seja feita, sabe harmonizá-los como ninguém. Depois declarou que os devastadores fogos de Monchique são “a excepção que confirma a regra” do indiscutível sucesso do governo no combate aos fogos. Sem querer ser pretensioso, permito-me lembrar que nenhuma excepção confirma uma regra: as excepções infirmam as regras. Mas a utilização do mentiroso lugar-comum por Costa confirma (agora sim) algo que é lícito pensar: que, para ele, qualquer excepção confirma a sua regra. A estrutura do seu pensamento é a da plasticina. Mil excepções confirmariam sempre a sua regra. O socialismo tem o seu futuro garantido. A plasticina mental é invencível.

Bruno Aleixo. Um oásis de inteligência no longo e continuado deserto do humor nacional. A atenção aos modos de falar que quem faz aquilo tem é admirável, bem como a capacidade de criar personagens. Hoje em dia, espero os programas do Bruno Aleixo como, em inícios da década de oitenta, os de Herman José. Ajuda a viver.

Campeonatos europeus de Glasgow e Berlim. Ciclismo em pista, natação, atletismo, etc. Uma das poucas razões saudáveis para passar horas em frente à televisão. Ver o levar ao limite das capacidades humanas naturais de correr, nadar, saltar, etc., faz bem. No fundo, sentimos em nós aqueles exercícios. Não é preciso ter má consciência com certas satisfações substitutivas. Sobretudo quando sabemos que rapidamente nos daria o badagaio se nos metêssemos a fazer o que eles fazem.

CP. Os comboios andam a lástima que se sabe, fruto do fim da austeridade. Ar condicionado que não funciona. Linhas encerradas. Horários reduzidos. Etc. Uma coisa nos deve tranquilizar. Como escrevia no outro dia um preclaro comentador anónimo de um artigo do Observador, de uma coisa podemos estar certos. Mesmo no dia em que deixarem de circular comboios em Portugal, a CP continuará a existir e os trabalhadores da CP continuarão a fazer greves. Subscrevo por inteiro as palavras desse espírito esclarecido.

Marcha (cinquenta quilómetros, mas podiam ser cinco, ou mesmo cem metros). Contrariamente a todas as outras modalidades do atletismo, a marcha não corresponde à realização eminente de modos naturais de movimentos do corpo. É, pelo contrário, a encenação de uma degradação destes. Estou perfeitamente à vontade para o testemunhar. Aos cinquenta e oito anos, arrasto cada vez mais os pés. Que se cultive publicamente um vexame destes, ultrapassa a imaginação humana. Não só é feio de ver como é triste de imaginar. Se fosse dado ao costumeiro “Devia ser proibido…”, os cinquenta quilómetros marcha seriam um dos principais concorrentes à maldição eterna.

Marx (Irmãos). Eu e a minha mulher passámos duas semanas a rever todos os filmes dos Irmãos Marx, do primeiro ao último. Não me tinha de modo nenhum esquecido da sua genialidade, mas é espantoso como ela está logo inteira, na perfeição, no primeiro filme e como atravessa sem falhas todos os outros. A combinação de Groucho, Harpo e Chico é pura e simplesmente miraculosa. Cada um é perfeito em si e mais que perfeito em conjunto com os outros. E é como se aquilo tivesse nascido do nada. A descendência é a mais fecunda que se pode imaginar, mas, por maior que seja o talento da prole, fica-se sempre aquém do milagre original.

Passos Coelho. Saudade de um homem corajoso, íntegro e cordato à frente do país.

Robert Harris. É nestas férias que vou retomar a já velha de vários anos triologia de Robert Harris sobre Cícero. Fidelíssima à sua biografia e utilizando abundantemente materiais dos discursos e da correspondência, é ao mesmo tempo uma criação literária efectiva e escrita com um estilo eficaz. Para mais, lida com um período em que, talvez mais do que em qualquer outro, os comportamentos políticos nos surgem com uma inteligibilidade única, o da queda da república romana.

Rui Rio. Saudade de um homem corajoso, íntegro e cordato (Passos Coelho) à frente do país.

SNS. A esquerda reivindica para si a integralidade da defesa do SNS. O PS no poder faz tudo o que é possível para o tornar definitivamente inviável. Uma desgraça.

Sporting. Não tenho nada contra o Sporting. Alguns dos meus melhores amigos são sportinguistas. Mas o espectáculo permanente, depois (?) do longo episódio Bruno de Carvalho, das eleições dos “leões” arrasa a paciência do mais pacato cidadão. Já estou na fase dos “cinquenta quilómetros marcha”. Não se poderia torná-las clandestinas, sem que a televisão lhes desse cobertura? Poder-se-ia utilizar um argumento: em certos casos célebres, a clandestinidade inicial assegura incontáveis e muito duradouras vitórias futuras.

Trump e Anti-Trump. Não quero comentar agora Trump e os incontáveis anti-trumpistas. Apenas constatar uma coisa: num certo plano, ambos formam um magma em que tudo parece indistinguível. Como se, contra toda a lógica,  Trump e o anti-trumpismo precisassem desesperadamente um do outro. Com uma pequena ressalva: Trump, sendo mais afirmativo, coloca-se sistematicamente numa posição de vantagem em relação aos outros, puramente reactivos.

Volta à França. Mais uma volta à França e mais uma vitória da Sky. Em Portugal, temos a sorte de ter como comentadores da Eurosport quatro óptimos profissionais que sabem, ao mesmo tempo, fazer companhia e que não confundem levar a Volta a sério com levarem-se a sério. Em particular, o excepcional francês Olivier Bonamici, com um sentido de humor e uma capacidade de encaixe à prova de bala. Desta vez não ganhou o grande Chris Froome, provavelmente por vir cansado da Volta à Itália, que ganhou. Mas ganhou o galês Geraint Thomas, também da Sky. E Froome, grande campeão, ajudou-o a ganhar. Como de costume, os franceses, a começar pelo jornal L’Équipe e a acabar no mais insignificante selvagem que assiste à Volta pelas estradas fora, procuraram liquidar Froome de todas as maneiras possíveis. Não parece que tenham ficado muito contentes com a vitória de Thomas. De uma certa maneira, compreende-se. O último francês a ganhar a Volta foi Bernard Hinault – em 1985. E ver uma equipa do outro lado da Mancha a ganhar, com ingleses e um galês, a Volta à Gália, deve parecer uma ofensa póstuma ao nariz de De Gaulle. Eles que se deixem disso: têm um país lindo de morrer onde se come e bebe muito bem, além de vária outra coisa. Não precisam de se armar em idiotas.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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