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Ao preparar-se para sair da crise sanitária, e no momento em que reconstroi o seu futuro, Portugal deve abraçar um novo desafio que seja ao mesmo tempo mobilizador, empolgante e concretizável.

Essa meta, que apenas o governo poderá articular de tal forma que suscite a adesão de todos os portugueses sem beliscar sensibilidades alheias, só poderá ser uma: tornar Portugal o país referencial da península ibérica.

O país que, quando comparado com o seu único vizinho, Espanha, dele se possa destacar pelas boas razões: pela sua previsibilidade, estabilidade política e paz social, a solidez das suas instituições, a segurança dos seus cidadãos, a eficiência do seu sistema de saúde, as energias limpas, a sustentabilidade e equidade do seu modelo económico, a excelência do seu setor turístico, a qualidade do seu meio-ambiente, do seu sistema educativo, das suas infraestruturas de transportes e comunicações; o país que se diferencia pela preservação das suas paisagens naturais e a valorização do seu património histórico, pelo nível atingido pela sua ciência, pela sua aposta na cultura, na produtividade, na formação académica e profissional, no investimento nas áreas da inovação e criatividade, em suma, pelos resultados visíveis de um esforço concertado e colectivo orientado por uma visão partilhada, integrada e holística do país físico e mental que ambicionamos ser.

Não obstante o desequilíbrio patente entre os dois países nas dimensões demográfica e económica, essa visão, esse objetivo, esse propósito, está ao alcance da mão, tantas são já as vantagens intrínsecas que temos em relação aos nossos amigos espanhóis: o caráter mais educado e acolhedor do povo português; a nossa capacidade de adaptação e integração; o clima mais temperado e ameno; a homogeneidade da nação; a imagem de país ganhador; o cosmopolitismo do passado que hoje se reflete no espírito mais aberto e tolerante da nossa gente e no seu maior domínio de línguas; o universalismo da nossa pegada histórica que nos permite lançar pontes de entendimento com os outros sem suscitar anti-corpos, antes testemunhos de amizade e confiança de muitos – como aliás demonstram os cargos internacionais de primeira ordem para que portugueses foram eleitos; a vastidão e beleza das praias e a riqueza e diversidade do nosso interior; a qualidade dos campos de golfe e as condições únicas para o surf; o encanto extraordinário dos Açores e da Madeira; a riqueza e originalidade da gastronomia e do vinho; a nossa localização estratégica como porta de entrada para a Europa e janela com vista sobre o mundo.

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Descartando cativações mentais inibidoras ou atitudes nacionalistas estúpidas, destacarmo-nos de Espanha pela diferenciação positiva, tornarmo-nos o país ibérico de referência, o país para onde se olha quando se olha para esta parte da Europa, quando se comparam estatísticas, indicadores, níveis de bem-estar e de desenvolvimento humano, influência política e cultural, avanços económicos e tecnológicos ou, tão só, soft-power, deve ser a nossa ideia, a nossa ambição, o nosso desafio coletivo para o futuro próximo.

O nosso desígnio, esse, foi há muito traçado — um país improvável que ao longo de quase nove séculos, persistindo contra ventos e marés, rivais e adversários mais fortes, soube construir uma personalidade única e imprimir a sua marca singular no mundo.

Um país que, como poucos, contribuiu de forma decisiva para o avanço da humanidade. Tal como a Grécia nos legou a democracia e Roma, a cristandade, Itália, o renascimento e França, os direitos humanos, Inglaterra, o modelo político liberal e os Estados Unidos, a ordem internacional em que prosperámos em paz, e a ciência e a tecnologia modernas, Portugal deixou ao mundo as chaves da globalização, abrindo dessa forma o caminho para um destino humano comum.

Tal como outrora, mas agora num esforço coletivo virado para dentro, ocupando-nos do nosso jardim, cabe-nos hoje outra vez descobrir um mapa que nos indique um caminho novo.

Sem devaneios pretensiosos ou megalomanias deslocadas, antes com sentido realista mas aspiracional, caberá a cada um de nós, na sua casa, profissão e tempos livres, conhecendo o destino final da jornada, lapidar e colocar a sua pequena pedra nesse caminho que se quer percorrer, construindo-o passo a passo.