Portugal enfrenta um dos maiores desafios de saúde da sua história e não é necessariamente a Covid-19. A par da situação pandémica, que seguramente se resolverá, um outro inimigo vem causando danos à saúde dos Portugueses há várias décadas, sem que tenha merecido a devida atenção dos sucessivos governos. O nosso país continua a ter um dos índices de atividade física mais baixos da Europa. O sedentarismo é um dos fatores que mais contribui para uma morte prematura. Falamos de doenças como a obesidade, hipertensão, doenças de foro oncológico ou depressão. E nesse sentido, a Covid-19 veio piorar todos os indicadores que já não favoreciam os portugueses.

A inatividade física é também uma pandemia, sendo o quarto fator de risco de mortalidade global (OMS, 2012). Apesar das evidências sobre a importância da atividade física e do desporto na saúde, nos sistemas de saúde pública e na economia, a percentagem de pessoas que não realiza atividade física mínima é cada vez mais alarmante. Os dados mais recentes – Eurobarómetro da Atividade Física divulgado em março de 2019 – indicam que Portugal se encontra entre os três países da União Europeia com piores resultados, a par da Grécia e da Bulgária. O nosso país apresenta um valor de 68% de pessoas inativas, contra uma média europeia que ronda os 42%. No Barómetro realizado pela Portugal Activo | AGAP em 2019, a taxa de penetração dos clubes de Fitness e Saúde na população portuguesa era de apenas 6,9 % (inferior em 4% à média europeia). Muitos outros dados podiam ser avançados sobre a triste realidade nacional, mas estes são já elucidativos.

A Portugal Activo | AGAP tem trabalhado incansavelmente pela valorização e pelo incremento da prática de exercício físico. Malogrado esse esforço, quase solitários, estamos muito preocupados com o futuro da saúde dos Portugueses. Por cada espaço novo que abre, mais de 80% dos inscritos são pessoas que nunca praticaram exercício físico num clube de Fitness e Saúde. Assim, por cada nova abertura, cresce o número de pessoas que iniciam uma vida mais ativa e saudável. Todavia, neste contexto económico-financeiro de pandemia extremamente adverso, onde se registam quebras de receita e frequência acima dos 80%, o cenário não favorece novas aberturas. Pelo contrário. Mesmo assim, os clubes de Fitness e Saúde investiram consideravelmente para se adaptarem à “nova realidade”. Mais de 500 já têm o selo “Health & Safe”, uma certificação que garante que os espaços estão a cumprir integralmente as orientações da DGS. Vivemos uma retoma vagarosa e até voltarmos ao patamar prévio à Covid-19 haverá, sem dúvida, um longo percurso a percorrer.

Assim, conclui-se que os efeitos do contexto presente se fazem sentir de forma muito expressiva em dois níveis distintos. O primeiro está relacionado com saúde da população e, o segundo, com as dificuldades económicas e financeiras que os muitos clubes enfrentam. Face a este cenário preocupante, impõe-se um conjunto de alterações e de decisões políticas que são determinantes para dar resposta aos dois níveis de dificuldades atrás referidos. A continuidade da ausência de uma política relevante e coerente neste domínio, tal como se tem verificado nos anos mais recentes, agravará um cenário que é de grande complexidade.

O país e este setor precisam urgentemente de medidas específicas, como benefícios fiscais no IRS para os utilizadores, ou a descida do IVA para o exercício físico. Caso contrário, estaremos a comprometer a saúde dos Portugueses e a viabilidade de um setor muito representativo para a saúde e economia portuguesa. Para alcançar metas como “colocar o país no lote das quinze nações europeias com cidadãos fisicamente mais ativos, na próxima década”, constante no programa do atual Governo, não basta “desejar”. É imperioso definir uma política orçamental que dê resposta às necessidades identificadas para esta área.

O exercício físico é também, neste momento delicado, parte da solução para a pandemia. Como tal, é indispensável que todos os intervenientes neste setor – clubes de Fitness e Saúde, partidos políticos e Governo – deem passos concretos e efetivos no mesmo caminho, conseguindo-se uma mudança de um país inativo e sedentário para um Portugal Mais Ativo e, consequentemente, mais saudável. A Portugal Activo | AGAP tem dado um contributo empenhado para a revitalização económica do setor e para a melhoria dos índices de atividade física. Caberá agora aos decisores políticos cumprir com a parte que lhes compete.