As primeiras medidas tomadas pelo novo Governo grego são uma estranha forma de começar uma negociação. Rasgar unilateralmente alguns compromissos a que o país se tinha vinculado, antes mesmo de se sentar à mesa com os parceiros que financiam o país há cinco anos, não é um cartão de visita próprio de quem garante que quer negociar e não afrontar.

Mas desconte-se o facto porque estarmos na fase do “poker”. Entre o “bluff” e o jogo que temos na mão, estica-se a corda tentando perceber onde estão os limites do adversário. Em política, o que parece é. E o Syriza tinha que fazer a sua prova de vida, cravando a sua marca nas primeiras medidas, tomadas num Conselho de Ministros de estreia insolitamente transmitido em directo pela televisão estatal.

O que está em causa neste jogo é muito mais do que o futuro da Grécia e da sua dívida ou o sucesso ou fracasso do governo do Syriza. O braço-de-ferro que Atenas agora inicia com a União Europeia e outras capitais europeias pode, no limite, mudar radicalmente as regras do euro e alterar profundamente a forma como os países da moeda única se relacionam financeira e politicamente. Pode, a prazo, ser um acelerador da integração europeia a caminho de um modelo federalista ou, pelo contrário, ser a vacina que afasta esse caminho por várias décadas.

Sabemos desde Maastricht que a moeda única é uma construção a que falta um pilar essencial: uma verdadeira coordenação das políticas económicas e orçamentais e a existência de um generoso orçamento comunitário que faça as transferências necessárias para regiões – países – que não consigam acompanhar a passada ou onde ocorram choques assimétricos.

Como uma mesa quadrada que não tem uma perna, bastava que alguém mais distraído se apoiasse desse lado para a mesa que venha abaixo.

Mais tarde percebemos também que nem todos os que entraram estavam dispostos a fazer os trabalhos de casa e que, no jogo da partilha de soberania, estavam apenas interessados em sacar o almoço grátis que a moeda única proporcionava de imediato: juros baixos, moeda sólida e de aceitação global, credibilidade emprestada na política monetária e cambial. Não se preocuparam sequer em ajudar a pôr a mesa. Entretidos com o banquete de dívida barata e abundante que de repente tinham à sua frente, muito menos quiseram tomar consciência que em economia os almoços grátis costumam sair muito caros. Pode demorar algum tempo, mas a factura chega sempre.

Foi isso que aconteceu com Portugal e Espanha. Com a Irlanda também, embora com características diferentes – dívida sobretudo concentrada na banca, que financiou imobiliário dentro e fora do país. E, claro, com a Grécia, que beneficou da complacência europeia logo no momento da entrada, quando todos fecharam os olhos à manipulação das estatísticas que lhe deram acesso à moeda única.

Todos tomámos emprestada a reputação e a credibilidade económica e financeira de países como a Alemanha, a Holanda ou a Áustria, beneficiámos delas enquanto pudemos, mas não soubemos estar à altura delas. A crise da dívida que se desenhou há meia dúzia de anos foi apenas o balão que rebentou na cara dos que abusaram dessa reputação emprestada. E se a reputação é um bem precioso na vida, na economia ela vale milhares de milhões.

O que está em causa na batalha que agora se inicia tem sobretudo a ver com reputação e com a confiança que depositamos naqueles a quem damos o aval.

O problema da Grécia é que já mostrou por várias vezes não estar à altura dessa confiança. Porque mentiu nas estatísticas repetidamente, porque as suas elites não cuidaram devidamente do seu Estado e da sua economia, porque recebeu um primeiro empréstimo da troika de 110 mil milhões que afinal não foi suficiente, porque há três anos já teve um perdão de cerca de metade da sua dívida, porque o segundo empréstimo de 130 mil milhões também não está a ser suficiente, porque pelo meio os termos desses empréstimos já foram revistos em condições muito mais vantajosas para o país.

Também porque, é verdade, as medidas que lhe foram impostas como condição para os empréstimos não tiveram o efeito que se esperava e fizeram o país entrar numa espiral recessiva violenta com efeitos sociais devastadores. Mas, e isto não é um pormenor, essas medidas foram aceites e, melhor ou pior, executadas por governos democraticamente eleitos, tão legítimos e com capacidade para vincular o Estado como este que agora tomou posse.

Que o resgate da Grécia falhou é uma evidência. Mas se a Grécia tivesse sido deixada à sua sorte em 2010 o impacto económico e social seria muito pior. Em poucas semanas o Estado não teria dinheiro para pagar salários, a população sofreria o impacto de falências bancárias em série com a consequente perda de poupanças e muitas empresas seriam dizimadas.

Foi, nova evidência, a solidariedade europeia – suportada pelos países do euro na proporção directa do peso das respectivas economias, através de mecanismos não previstos criados em cima do joelho – que evitou na Grécia esse cenário dantesco. Porque, acreditem, por mais grave que seja hoje a crise humanitária na Grécia ela teria sido pior. Ela pode ainda vir a ser muito pior, dependendo do desenlace que este novo ciclo político venha agora a ter.

Não é honesto, por isso, pretender agora que a Europa – com a Alemanha à cabeça – não se chegou à frente quando o fogo começou na Acrópole. Ou que não voltou a ajudar uma e outra vez, quando a primeira ajuda não chegou e a segunda também não.

Ainda que a austeridade seja, por vezes, um imperativo de responsabilidade, ninguém gosta de a praticar. É contra a natureza humana e mais ainda contra a natureza dos políticos, quase sempre mais interessados em governar a pensar na próxima eleição do que na próxima geração.

Para um governo radical que acaba de ser eleito com a bandeira “anti-austeridade”, num momento de forte clivagem ideológica e num país em emergência social, o caso fica ainda mais bicudo. Para complicar mais a equação, sabemos que o dinheiro que esse governo tem à disposição é de outros países, emprestado por governos com igual legitimidade democrática que têm de prestar contas aos seus contribuintes. E se pensarmos que esses credores têm uma legitimidade financeira e moral que a Grécia não tem, temos então a tempestade perfeita.

É um erro reduzir a questão ao simplismo ideológico usado com cegueira clubística, da esquerda contra a direita, dos alegados defensores do Estado Social contra os supostos neoliberais, dos que fazem juras de amor ao povo contra outros acusados de odiar o povo.

As sociedades que criam riqueza têm alguma coisa para distribuir. As outras só podem distribuir pobreza. Podem ambicionar distribuir a riqueza que outros criam mas depender dessa boa vontade alheia não é modo de vida para ninguém.

A questão que agora se coloca é “até quando”. Ou “até quanto”.

A União Europeia, a Alemanha e os países do “núcleo duro” do euro jogam aqui a sua reputação e a da moeda única.

Uma cedência à Grécia sem condições duras que a acompanhem abre uma caixa de Pandora de consequências imprevisíveis. Nenhum Governo alemão, holandês ou finlandês, no seu perfeito juízo, aceitará continuar nesta nave de loucos. Porque hoje é Atenas. Amanhã poderá ser Lisboa. Depois Madrid e, quem sabe, Roma. O “prémio” dado a este governo grego incentivaria o fortalecimento de outras propostas radicais por essa Europa fora, à esquerda e à direita.

Mais depressa a União Económica e Monetária, já fragilizada com esta crise das dívidas, será repensada de raiz, com o estabelecimento de regras claras de partilha de responsabilidade que não foram previstas em Maastricht nem nos vários tratados, pactos e acordos que se lhe seguiram. É esse desenho que está em causa na crise grega.

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