1. “Sim, presidente?”. O secretário Regional das Finanças atende o telefone, mergulhando de imediato no assunto sobre o qual, de Porto Santo onde passa alguns dias de férias, Miguel Albuquerque lhe pede esclarecimentos. São nove da manhã mas no gabinete de Rui Gonçalves e o que mais me prende a atenção não são as Finanças regionais mas sim a sua espantosa parecença física com Vitor Gaspar (a mesma estatura, o mesmo cabelo escuro e curto, o mesmo modo de inclinar a cabeça, o mesmo olhar atento). Conhecem-se, aliás, Gaspar e Gonçalves. Estiveram mais de uma vez sentados frente a frente, quando Rui Gonçalves acompanhava Ventura Garcês – anterior titular das Finanças – nas reuniões a Lisboa, sobre o programa de ajustamento da Madeira, de cuja coordenação técnica Gonçalves era o responsável. Foi a troika deles.

A experiência e o treino que este economista tímido e quarentão foi acumulando (esteve “por dentro de todas as negociações que envolveram matérias financeiras com a República”) não passaram desapercebidas a Miguel Albuquerque, que entendeu “valorizá-las”

“São águas que começo agora a nadar…” Rui Gonçalves sabe que “o OE para 2016 será o seu grande teste”, mas também sabe que sinalizou já claramente a Miguel Albuquerque “a necessidade absoluta de todo o apoio político do chefe do Governo para os objectivos de rigor e contenção orçamental”.

É um dos trunfos de um Executivo de gente ágil e enérgica, de várias proveniências e disposta a quase tudo para provar que mudar tem de significar alguma coisa que valha a pena.

2. Durante quase quatro décadas Jardim humilhou e nalguns casos espoliou (sem nenhuma espécie de compensação monetária) o que quase com asco chamava “a Madeira Velha”: a aristocracia, os ingleses, os proprietários “antigos”, os donos das quintas – aqueles que construíram o prestígio da ilha – ou simplesmente os que individualmente ou em grupo nunca dependeram do Estado, o que na Madeira, até há pouco tempo e como bem sabemos, sempre se confundiu com o PSD/M. Enquanto isto, Alberto João Jardim ia adubando e favorecendo a “Madeira Nova”, através da qual visou – com êxito – consubstanciar o seu projecto politico hegemónico, mesmo se sempre legitimado pelo voto. Nos intervalos, insultava o “continente”, as autoridades políticas, as instituições e os portugueses de forma geral. Chamava-nos “cubanos”. Foi ontem.

Hoje há surpresa e expectativa. O ambiente mudou radicalmente. Há outra forma de comunicar. Uma nova atitude. Há relações normais com o continente e sobretudo, entre as instituições locais. No parlamento madeirense o ar que lá se respirou durante trinta e oito anos deixou de ser política e partidariamente rarefeitom para passar a ser prosaicamente democrático. E há (algumas) boas noticias, dos números do desemprego às diversas negociações – políticas ou económico-financeiras – já concluídas ou em curso, na Região e na República.

Eduardo de Jesus , 44 anos, empresário, ex-líder da Ordem dos Economistas da Madeira e actual secretário Regional da Economia, Turismo e Cultura (com o estatuto de independente) chama a isto “Nova Madeira”. Mas “nova” – diz ele – não se refere apenas a uma atitude ou uma nova geração política. É mais ambicioso. E a prová-lo, ouço algumas histórias de jovens madeirenses cujos “feitos” ou “descobertas”, ligando o sector do conhecimento ao universo empresarial, foram já reconhecidas – e requisitadas – internacionalmente (hei-de voltar a isto, que hoje falta-me o espaço).

3. Miguel Albuquerque é um personagem – o que, sendo um estatuto ardiloso, não está ao alcance de qualquer um. Político arguto, é um homem de bom gosto e boas maneiras. Cultiva rosas, tem a paixão da botânica, sabe entrar num antiquário e não comprar gato por lebre, gosta de tocar piano (quando a mulher se atrasa a arranjar-se, domina a sua genética impaciência sentando-se ao piano que tem em casa), é civilizado e cosmopolita.

Nunca desiste de celebrar a vida, também lhe está no código genético.

Politicamente é um fazedor e raras vezes na política portuguesa se contou com vontade política tão persistente: recorde-se como, sem espalhafato, derrotou Jardim; relembre-se como, contra todos os vaticínios, o PSD nem se esfrangalhou, nem se desuniu, após a saída do grande líder; não se perca de vista como ao fim de quase quatro décadas de era “jardinista”, Migeul Albuquerque transformou uma transição política quase “impossível” num vulgar acto democrático com as regras de um Estado de Direito, amparadas numa boa dose de elegância pessoal. E, last but not least, tem a intuição afiada: apercebe-se das coisas ao primeiro relance, radiografa alguém em segundos. Bons instrumentos de navegação politica não fora o permanente impulso da pressa, a tal impaciência feroz, a atração (fatal?) de tudo concretizar num minuto. Actua sempre como se tivesse pressa e, mesmo quando os assuntos requerem pausa e ponderação e normalmente requerem, ele não resiste à sua própria velocidade. Sendo indiscutivelmente um líder, não se sabe ainda se virá a ser um bom chefe de governo. Com os personagens, é isto: confundem-nos. Talvez seja por isso que tanto nos atraiam.

4. Uma “Nova Madeira”? Levará tempo apesar do fulgor e do élan, quase detectáveis nas ruas. Havia grandes paquetes atracados ao cais novo, uma avalanche de turistas impressa nas paisagens, um mar de veludo, uma cidade impecavelmente limpa e com os espaços públicos cuidados – não é de agora –; restaurantes onde se quer voltar, esplanadas animadas, um simpático ar de festa nas coisas.

Mas pedras neste caminho – nunca deixou de haver – e algumas pesadas. Assimetrias gritantes, obstáculos ruins, adversidades diversas: ancestrais umas, consequência de erros politicos e más escolhas, outras. Da persistente iliteracia à segunda maior taxa de abandono escolar de Portugal; de uma elevada taxa de desemprego jovem ao também elevado índice de pessoas que nem estudam, nem têm emprego, há muito mar pela frente.

Apetece que o desafio da Nova Madeira se cumpra. Vontade de começar uma nova era não lhes falta.