Politicamente Correto

Uma pergunta aos Macrons do nosso mundo

Autor
488

Vamos continuar a alimentar a extrema-direita, dando-lhe razões para progredir, ou chegou a altura de sair de forma clara e sem ambiguidades do pântano para onde o politicamente correcto nos empurrou?

Na sua recente visita à ilha de Saint-Martin, nas Caraíbas, o presidente francês Emmanuel Macron fez-se fotografar, ou aceitou ser fotografado, com dois jovens negros de tronco nu e pose agressiva e obscena. O da esquerda, um estudante, mostra, desafiante, a sua mão direita com o dedo do meio bem esticado — o conhecido gesto fálico —, enquanto que o da direita, um jovem de gorro preto na cabeça e que, soube-se depois, havia acabado de sair da prisão onde cumprira pena por assalto à mão armada, exibe um par de cornos feitos com a sua mão esquerda. No meio deles Macron faz o seu melhor sorriso para o passarinho — cheese.

Podemos dizer que o presidente francês não tem qualquer culpa da javardice dos seus companheiros ocasionais (ainda que se tenha posto muito a jeito para isso). Mas o que é verdadeiramente grave não é a foto com o dedo do meio e o par de cornos, é aquilo que Macron declarou, após o acontecimento, não para o censurar e dele se demarcar, mas para o contornar e desculpar. Quando Marine Le Pen e outros opositores lhe caíram, compreensivelmente, em cima, classificando como indesculpável a imagem que ele dava, ou permitia que se desse, da França, o presidente francês veio dizer que está com o povo e que ama “todos os filhos da República, independentemente dos seus disparates”, e deixou implícito que não há rapazes maus, apenas rezes momentaneamente transviadas dos caminhos do bem. Poderíamos achar que Macron tem mau gosto e que está cego. Mas na verdade não se trata de uma questão de gosto nem de cegueira. É, apenas, demagogia, a mais rasteira vontade de querer ser popular e agradar à populaça. A populaça, por norma, e quando o tempo certo chega, cospe em cima dos demagogos. Despreza-os (coisa que eles, aliás, merecem).

Convém lembrar que este é o mesmo Macron que, em meados de Junho, repreendeu de forma muitíssimo áspera um jovem adolescente branco, manifestamente tímido, durante uma cerimónia de homenagem aos veteranos de guerra, em Paris, por este o ter saudado com um amistoso mas nada adequado “Ça va, Manu”? (Tudo bem, Manu?). Considerando — e bem — que esse era um tratamento desrespeitador, Emmanuel Macron, explicou-lhe, em tom ríspido, que, numa próxima vez, devia dirigir-se-lhe tratando-o por Monsieur ou Monsieur le President. Disse, também, ao adolescente que ele se estava a armar em parvo e que tinha de se comportar corretamente. “O respeito é o mínimo na República”, vincou Macron, fazendo outras considerações em tom paternalista que, depois, exibiu, orgulhosamente, no seu Twitter, como um salutar exemplo da sua autoridade e capacidade pedagógica para pôr os insolentes na ordem. A coisa ganhou tal amplitude e teve tamanho eco que o adolescente tornou-se motivo de chacota e mal ousa sair de casa.

Ora é esse mesmo Macron que, agora, decide posar para a fotografia com dois partenaires numa gestualidade que será tudo menos respeitosa. Porque é que não se abespinha? Talvez porque os jovens de agora são negros, desfavorecidos e residentes numa ex-colónia, e o rapazinho de Junho é branco, possivelmente parisiense e da classe média ou alta. Talvez porque é fácil repreender publicamente um adolescente branco, na Europa, mas nem pensar em fazê-lo com adolescentes negros nas Caraíbas, para não acentuar antigos vexames e correr o risco de ser politicamente incorrecto. Talvez porque, em certos contextos, os globalistas se estão nas tintas para a nação e não se importam de andar com ela de gatas para não ter de confrontar certos padrões comportamentais e culturais. Talvez porque Macron, que parece ter necessidade de exibir poses viris e ar de durão — ficou famoso o seu forçadíssimo aperto de mão a Trump —, não tenha tido coragem para mostrar músculo e autoridade naquele contexto particular. Talvez haja outras razões, mas o importante aqui não é fazer a análise psicológica de Macron nem escrutinar as suas demagogias e incoerências. O que importa é perceber que ele reproduziu e ilustrou uma atitude muito frequente nas nossas sociedades ocidentais, que, sobretudo à esquerda, têm um duplo critério perante a realidade social, passando do extremo rigor perante infractores supostamente privilegiados para a permissividade e o laxismo face às atitudes sociais dos supostos desfavorecidos por razões económicas, religiosas ou étnicas.

Se a extrema-direita cresce a olhos vistos no Ocidente isso deve-se, em boa parte, a esse tipo de atitudes e aos muitos Macrons que povoam o nosso mundo. É um crescimento reactivo. Em conformidade, a questão que devia preocupar-nos a todos é a seguinte: vamos continuar a alimentar a extrema-direita, dando-lhe razões para falar e agir, ou chegou a altura de pôr ordem no convento e de sair de forma clara e sem ambiguidades do pântano para onde o politicamente correcto nos empurrou e continua persistentemente a empurrar?

Historiador e romancista

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Escravatura

Lusotropicalismo ao contrário

João Pedro Marques
289

O Império Português em África não foi uma excepção no tristíssimo capítulo do trabalho coercivo, não obstante o que Fernanda Câncio e outros “lusotropicalistas ao contrário” nos querem fazer crer. 

Escravatura

Só 4% dos navios negreiros partiram de Portugal

João Pedro Marques
1.432

Dos séculos XVI a XIX, 37% das viagens de navios negreiros iniciaram-se no Brasil, 31% na Grã-Bretanha, 13% em França, 5% na Holanda, outros 5% nas Caraíbas e que só menos de 4% partiram de Portugal. 

Politicamente Correto

Os sem palavras /premium

Helena Matos
1.747

Nada é dito directamente: os trabalhadores são colaboradores e os deficientes pessoas portadoras de deficiência. Somos os perifrásticos. E o PSD enquanto "não esquerda" é a perífrase por excelência.

PAN

PAN, P(Ê)TA e a sombra do politicamente correto

João Vedor
125

Quando me acontecia algo, a minha avó retirava sempre da cartola um provérbio (não um coelho), que me ajudava a refletir sempre sobre o assunto, mesmo que na verdade esse provérbio envolvesse coelhos.

Bloco de Esquerda

Léxico para a inclusão

Vicente Ferreira da Silva
330

Senhoro Deputado, pense para além dos “camarados”. Porque não Bloca de Esquerdo? Acredite que Vosso Excelêncio é capaz de muito mais.

Bloco de Esquerda

Avante, camaradas e camarados /premium

Alberto Gonçalves
2.515

Mesmo que muitas mulheres, gays ou pretos não concordem, nas sociedades patriarcais e machistas toda a gente é vítima. Toda a gente menos os homens, brancos, broncos e heterossexuais, que são culpados

Democracia

A batalha pela linguagem /premium

Alexandre Homem Cristo
461

O melhor esconderijo é onde ninguém se lembra de procurar: à vista de todos. Enquanto os olhares focarem na direita, poucos verão que o populismo habita sobretudo na esquerda à beira de tomar o poder.

PSD

Marcelo, o conspirador /premium

Alexandre Homem Cristo

O pior destes 10 dias no PSD foi a interferência de Marcelo. Que o PSD se queira autodestruir, é problema seu. Que o Presidente não saiba agir dentro dos seus limites institucionais, é problema nosso.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)