Na sua recente visita à ilha de Saint-Martin, nas Caraíbas, o presidente francês Emmanuel Macron fez-se fotografar, ou aceitou ser fotografado, com dois jovens negros de tronco nu e pose agressiva e obscena. O da esquerda, um estudante, mostra, desafiante, a sua mão direita com o dedo do meio bem esticado — o conhecido gesto fálico —, enquanto que o da direita, um jovem de gorro preto na cabeça e que, soube-se depois, havia acabado de sair da prisão onde cumprira pena por assalto à mão armada, exibe um par de cornos feitos com a sua mão esquerda. No meio deles Macron faz o seu melhor sorriso para o passarinho — cheese.

Podemos dizer que o presidente francês não tem qualquer culpa da javardice dos seus companheiros ocasionais (ainda que se tenha posto muito a jeito para isso). Mas o que é verdadeiramente grave não é a foto com o dedo do meio e o par de cornos, é aquilo que Macron declarou, após o acontecimento, não para o censurar e dele se demarcar, mas para o contornar e desculpar. Quando Marine Le Pen e outros opositores lhe caíram, compreensivelmente, em cima, classificando como indesculpável a imagem que ele dava, ou permitia que se desse, da França, o presidente francês veio dizer que está com o povo e que ama “todos os filhos da República, independentemente dos seus disparates”, e deixou implícito que não há rapazes maus, apenas rezes momentaneamente transviadas dos caminhos do bem. Poderíamos achar que Macron tem mau gosto e que está cego. Mas na verdade não se trata de uma questão de gosto nem de cegueira. É, apenas, demagogia, a mais rasteira vontade de querer ser popular e agradar à populaça. A populaça, por norma, e quando o tempo certo chega, cospe em cima dos demagogos. Despreza-os (coisa que eles, aliás, merecem).

Convém lembrar que este é o mesmo Macron que, em meados de Junho, repreendeu de forma muitíssimo áspera um jovem adolescente branco, manifestamente tímido, durante uma cerimónia de homenagem aos veteranos de guerra, em Paris, por este o ter saudado com um amistoso mas nada adequado “Ça va, Manu”? (Tudo bem, Manu?). Considerando — e bem — que esse era um tratamento desrespeitador, Emmanuel Macron, explicou-lhe, em tom ríspido, que, numa próxima vez, devia dirigir-se-lhe tratando-o por Monsieur ou Monsieur le President. Disse, também, ao adolescente que ele se estava a armar em parvo e que tinha de se comportar corretamente. “O respeito é o mínimo na República”, vincou Macron, fazendo outras considerações em tom paternalista que, depois, exibiu, orgulhosamente, no seu Twitter, como um salutar exemplo da sua autoridade e capacidade pedagógica para pôr os insolentes na ordem. A coisa ganhou tal amplitude e teve tamanho eco que o adolescente tornou-se motivo de chacota e mal ousa sair de casa.

Ora é esse mesmo Macron que, agora, decide posar para a fotografia com dois partenaires numa gestualidade que será tudo menos respeitosa. Porque é que não se abespinha? Talvez porque os jovens de agora são negros, desfavorecidos e residentes numa ex-colónia, e o rapazinho de Junho é branco, possivelmente parisiense e da classe média ou alta. Talvez porque é fácil repreender publicamente um adolescente branco, na Europa, mas nem pensar em fazê-lo com adolescentes negros nas Caraíbas, para não acentuar antigos vexames e correr o risco de ser politicamente incorrecto. Talvez porque, em certos contextos, os globalistas se estão nas tintas para a nação e não se importam de andar com ela de gatas para não ter de confrontar certos padrões comportamentais e culturais. Talvez porque Macron, que parece ter necessidade de exibir poses viris e ar de durão — ficou famoso o seu forçadíssimo aperto de mão a Trump —, não tenha tido coragem para mostrar músculo e autoridade naquele contexto particular. Talvez haja outras razões, mas o importante aqui não é fazer a análise psicológica de Macron nem escrutinar as suas demagogias e incoerências. O que importa é perceber que ele reproduziu e ilustrou uma atitude muito frequente nas nossas sociedades ocidentais, que, sobretudo à esquerda, têm um duplo critério perante a realidade social, passando do extremo rigor perante infractores supostamente privilegiados para a permissividade e o laxismo face às atitudes sociais dos supostos desfavorecidos por razões económicas, religiosas ou étnicas.

Se a extrema-direita cresce a olhos vistos no Ocidente isso deve-se, em boa parte, a esse tipo de atitudes e aos muitos Macrons que povoam o nosso mundo. É um crescimento reactivo. Em conformidade, a questão que devia preocupar-nos a todos é a seguinte: vamos continuar a alimentar a extrema-direita, dando-lhe razões para falar e agir, ou chegou a altura de pôr ordem no convento e de sair de forma clara e sem ambiguidades do pântano para onde o politicamente correcto nos empurrou e continua persistentemente a empurrar?

Historiador e romancista