Deixei de sublinhar os livros há uns anos. Antes, sublinhava muito, acabando por destruí-los, a lápis ou esferográfica, sem qualquer respeito ou comedimento. Reencontro de vez em quando esses desenhos: riscos, grandes pontos de exclamação, setas, triângulos, sinais de alarme, sorrisos, corações. São como uma língua paralela, e como um livro paralelo, inscrito sobre aquele que li. Contam sobre a descoberta e a excitação, o reconhecimento, a frustração, a incompreensão, o deslumbramento.

Mas já não sublinho os livros. Anoto frases e palavras numa folha separada como quem rouba moedas — e depois perco essa folha.

Abrindo livros antigos, damos de caras com pessoas desconhecidas. Deixámos de conseguir perceber os nossos próprios sinais. Já não sabemos por que sublinhámos certos versos, que já não nos dizem nada. Não entendemos a ênfase, nem a paixão.

Não sei se os nossos sublinhados são auto-retratos necessariamente esquivos e deformados, mas muitas vezes são dos poucos vestígios ainda acessíveis da sensibilidade das pessoas que éramos.

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