Há uma pequena farmácia exemplar no coração das Avenidas Novas. Abriu nos anos sessenta, não foi remodelada, mantém os belos armários de origem e o néon ao fundo – desligado. E desde há dois anos tem uma nova proprietária e farmacêutica que, tal como a sua predecessora, presta um serviço, ou mais justamente, um cuidado de proximidade aos residentes, a quem trabalha no centro e por lá passe, e a quem não busque numa farmácia cosmética de ponta ou Birkenstock. Bastam duas ou três visitas para que saiba o nosso nome. Sem familiaridades. Com reserva. O que não existe no momento, chega no dia seguinte ou pouco depois. Atrás do balcão, adaptou-se à máscara e às luvas descartáveis, ao acrílico, ao desinfectante com pedal, à venda de máscaras cirúrgicas e comunitárias e às perguntas sobre grupos de risco, contaminação, transmissão, medidas protectoras e ao quando chegam as vacinas da gripe. E mais tarde ao já chegaram as vacinas da gripe?

Em 2019, nesta pequena farmácia, foram vacinadas mais de duzentas pessoas. Este ano, pouco mais de vinte, o mesmo número de vacinas recebidas — a primeira tranche recebida chegou um mês depois do previsto e foi de cinco vacinas, a segunda viria quinze dias depois. O “vacine-se por si, vacine-se por todos” não chegou a mais de trinta.

Há nas Avenidas Novas uma população envelhecida em prédios ainda populares a salvo, pelo menos por mais uns meses, da gentrificação. E entre estes também há gente nova e de meia idade, doentes crónicos, de risco flutuante, para quem não houve vacina nos Centros de Saúde nem nesta farmácia onde, muitas vezes a expensas próprias, a farmacêutica faculta medicamentos urgentes a quem já não os pode pagar.

Em Portugal há cerca de três mil farmácias, postos de maior ou menor proximidade, onde são conhecidas as necessidades de cada população: quem não pode ficar sem o anti-hipertensor, quem não está inscrito no Centro de Saúde, quem faz insulina, quem recebe a medicação entregue pela farmácia hospitalar, circuito desenvolvido pós-Covid pela necessidade de manter os utentes salvaguardados.

O plano de vacinação contra a Covid 19 tem como objectivo vacinar 50 mil pessoas por dia nos Centros de Saúde, portanto, 300 mil por semana e sem prejuízo do funcionamento destes. No entanto, 6,6 milhões de consultas de cuidados primários, nos Centros de Saúde, ficaram por fazer desde o início da pandemia. Só de cuidados primários. Em simultâneo, são dispensados do circuito de vacinação cerca de cinco mil farmacêuticos habilitados a vacinar, e as farmácias que tenham condições de armazenamento e administração da vacina. Ao contrário do que está previsto acontecer no Reino Unido, por exemplo.

Mas diante da já prevista escassez de vacinas, que importância tem o desperdício de recursos?