Ainda que acredite na sua relevância para muita gente, não sou muito dada a frases ou discursos inspiracionais tão em voga nos últimos anos. No actual enquadramento, a frase “vamos todos ficar bem” inunda as redes sociais e espalha-se pelas janelas. Acredito que este tipo de mensagem transmita positividade e dê força e esperança a muitos que se veem forçados a permanecer em casa mas… quem (e quando) é que vai ficar bem?

O que aí vem não tem nada a ver com a crise de 2008. Vai ser muito pior. Com excepção – como sempre — para os funcionários públicos, a generalidade das empresas privadas de pequena e média dimensão e os seus trabalhadores estão sem saber se vão ter dinheiro no próximo mês. E o meu ponto não é político, é económico e de justiça social. E o meu ponto também não é que os funcionários públicos devam ser afectados, como é obvio. Apesar de considerar que há muito para rever em matéria de quadros públicos, nomeadamente ao nível dos direitos garantidos, não é seguramente o momento para o fazer. O meu ponto é que tem de se pensar de uma vez por todas qual o papel do estado na economia.

Todos os dias há medidas de apoio a serem noticiadas para no dia seguinte serem alteradas. Todas elas com um ponto em comum – o empresário tem de se chegar à frente. Depois, eventualmente, se cumprir uma série de requisitos pode ser que receba algum apoio. Ah, e parece que pode endividar-se. Que maravilha. Já antes o podia. Mas agora é mais fácil (na perspectiva do banco porque 90% tem garantia do Estado) e tem carência, claro, para não ter de começar já a pagar, mas o certo é que em muitos sectores, as receitas perdidas não serão nunca recuperadas. Não vamos amanhã almoçar duas vezes ao restaurante para compensar não termos almoçado hoje.

Na crise de 2008 fecharam muitas empresas mas em cada sector de actividade houve quem fechasse e quem se mantivesse a funcionar. A construção civil foi eventualmente o sector mais afectado mas todos os outros (sectores), melhor ou pior, sobreviveram.

A mesma crise de 2008 forçou muita gente a criar o seu próprio posto de trabalho. Pessoas a quem agora é vedado apoio porque são, imagine-se, sócios-gerentes, com um, dois ou três trabalhadores! Estou convencida que este ponto é mais um dos que vai ser alterado mas o tempo que se perde com este cria, tira e altera medida tem efeitos colaterais desnecessários. A incerteza e ansiedade que tal cria em quem tem de tomar decisões rapidamente aumenta. E pode conduzir a decisões erradas, precipitadas, com prejuízo para os trabalhadores.

Nessa mesma conjuntura, os antigos recibos verdes – agora designados (e bem) por trabalhadores independentes — dispararam, em número e actividades. Têm uma rede de suporte do mais frágil que existe, para não dizer inexistente.

O Alojamento Local surgiu, apoiado e a apoiar o crescimento súbito do turismo e resultou na criação de emprego a muita gente das mais variadas áreas de actividade.

E agora? O turismo acabou e ninguém sabe até quando. As lojas dos centros comerciais estão fechadas. As lojas de rua estão fechadas. Os restaurantes estão fechados. Os cabeleireiros estão fechados. Os dentistas estão fechados. Os trabalhadores independentes não podem trabalhar – porque não há espectáculos, não há eventos, não há estéticas, não há fisioterapias, não há explicações, não há ginásios … conhecemos tanta gente que desenvolve estas actividades e que depende apenas de si própria para ter o seu ordenado – que não é fixo, não é garantido, que uns meses corre melhor, outros corre pior, que não tem direito a baixas ou a subsídio de desemprego… Estas pessoas todas não podem trabalhar! E muitos deles, além de precisarem do seu ordenado, têm custos fixos para pagar.

Ouvimos falar em milhares de milhões de euros em apoios do BEI e da CE ao país ao mesmo tempo que ouvimos que no lay-off simplificado, os ordenados têm de ser pagos na totalidade pelos empregadores que, posteriormente, recebem o co-pagamento do Estado. O Estado saberá o significado de Tesouraria? Pode de facto não o perceber já que tem de facto por hábito cobrar pontualmente, multar exemplarmente (sem direito a contraditório) mas pagar quando lhe apetece … mas a realidade dos pequenos empresários não é essa. Pela experiência passada receio que os milhões disponibilizados ao país, cheguem ao Estado, sejam atribuídos prioritária e de forma pouco transparente a interesses do próprio Estado, depois devem passar por algumas grandes empresas normalmente chamadas de estratégicas nestas alturas, e no fim, o que sobrar, talvez chegue às empresas mais afectadas. Na realidade, duvido que chegue aos que mais precisam.

O Covid-19 já afectou muita mais gente que a falência do Lehamn Brothers. Não vai ficar tudo bem e menos ainda para todos. Hoje ouvi o António Saraiva da CIP dizer que “alguns investiram demasiado no turismo sem pensar que uma coisa destas podia acontecer” É tão fácil falar no final do jogo, sobretudo para os que podem estar sentados, seja no escritório ou em casa, e ter a certeza de que o ordenado cai na conta no fim do mês, aconteça o que acontecer.