Rádio Observador

António Costa

Vale a pena estar no poder

Autor
1.446

As sondagens favoráveis a António Costa, mesmo depois de provado que os seus planos eram ilusórios, provam que em Portugal quem tem o Estado tem tudo, e quem não tem o Estado, não tem nada.

Em 2015, António Costa prometeu acabar com a austeridade e pôr a economia a crescer. Pouca gente acreditou, e Costa perdeu as eleições, com um dos piores resultados de sempre do PS. Mas Costa, apesar da humilhação, subiu ao governo. E o país pôde assim confirmar, em 2016, que as suas promessas eram de facto vãs: a austeridade foi apenas redistribuída, e o crescimento previsto é inferior ao dos tempos da “espiral recessiva” da troika. Mas eis que acontece isto: segundo as sondagens, muita gente parece agora, depois de provado que Costa não tinha razão, disposta a votar nele. Dir-me-ão: são as sondagens. Pois são, mas é o que temos. Que se passa? Porque é que o país da Europa cujas perspectivas são mais sombrias é um dos poucos onde as sondagens dão boas notícias ao governo?

António Costa não pôs a economia a crescer, nem acabou com a austeridade, mas conseguiu outra coisa, que em Portugal é tudo para ter aplausos: instalar-se no Estado, sem prazo para de lá sair. A maioria parlamentar está de pedra, Bruxelas aprova-lhe os orçamentos, o BCE empresta-lhe dinheiro, Costa distribui esse dinheiro pelas suas clientelas, o presidente da república congratula-se, e os comentadores competem nos estúdios para ver quem louva mais alto a “habilidade” do primeiro-ministro. Sim, valeu a pena ir para o poder. Sim, valeu a pena pisar as tradições políticas do regime, de precedência do partido mais votado e de exclusão de comunistas e neo-comunistas.

O general MacArthur dizia que não havia substituto para a vitória. Em Portugal, não há substituto para o poder. Portugal tem 200 anos de eleições. Mas a primeira vez que uma força política passou da oposição ao governo por via eleitoral foi em 1979, e a primeira vez que um primeiro-ministro candidato a reeleição perdeu foi em 2004, com Santana Lopes (só aconteceu uma segunda vez, em 2011, com José Sócrates). Foi sempre muito difícil constituir, a partir da sociedade, movimentos capazes de desafiar quem estava instalado no Estado – e nem sempre foi preciso o Estado ser policial: bastou que o Estado fosse grande em relação à sociedade, permitindo aos que o ocupavam cuidar das maiores clientelas do país e explorar o seu impacto na opinião. Nessas condições, as alternâncias no governo quase só ocorreram à força ou por desagregação do poder instalado, geralmente quando faltava dinheiro. Hoje, perante uma sociedade endividada, descapitalizada e envelhecida, o Estado, movimentando valores equivalentes a metade do PIB, é a última força em Portugal. Quem tem o Estado, tem tudo; quem não tem o Estado, não tem nada.

Daí Portugal ser um dos poucos países europeus em que não há movimentos anti-sistema a abrir noticiários. Enquanto a Inglaterra lida com o Brexit, a França receia Le Pen, e a Espanha antecipa a ultrapassagem do PSOE pelo Podemos – em Portugal, até o PCP e o BE são hoje pupilos de Costa. De facto, PCP e BE foram apenas mais duas vítimas do declínio da sociedade perante o Estado. Nenhum deles conseguiu explorar o ajustamento para crescer. O PCP, que já só tem sindicatos de empregados públicos, precisou de aceder ao Estado para os defender. Costa só precisou de lhes pôr as coleiras.

Só há um problema aqui: o Estado, também ele, já não consegue viver desta sociedade. Depende totalmente do exterior. Que acontecerá, quando a política monetária europeia mudar? A alternativa seria deixar a sociedade reforçar-se. Mas António Costa nunca o fará, porque isso significaria ceder poder. Este é um governo que, quando cair, arrastará o país consigo.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Política

O país onde a política morreu /premium

Rui Ramos
165

As más finanças, a estagnação económica e o envelhecimento demográfico tiraram oxigénio a tudo o que relacionávamos com direita e esquerda em Portugal. Há apenas governo e oposição.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)