“O coronavírus é indomável e está a crescer exponencialmente em todos os países afetados”, escreveu neste mesmo jornal Jorge Buescu, matemático de renome internacional, cientista e investigador premiado, na semana em que começamos a contar o número de mortos e não apenas de infetados. Agradeço pessoalmente a forma clara como pensa e escreve. Realista, mas não alarmista, fez uma nova síntese, a partir dos novos dados, para nos ajudar a compreender muita coisa, mas sobretudo para nos fazer agir.

Quando já começaram a morrer pessoas em Portugal e atravessamos um tempo de muita informação e desinformação, povoado de angústias e medos alimentados pelas sucessivas fake news que continuam a ser publicadas e são repetidas nas redes sociais, detenho-me neste artigo em particular por ser muito claro, muito eloquente, cientificamente preciso e incontornavelmente matemático.

Em alturas como a que estamos a viver, de grande incerteza, temos que cultivar a redundância comunicativa no sentido em que nos cabe sublinhar e divulgar as poucas certezas que temos. E eu tenho a certeza de que Jorge Buescu está certo naquilo que diz e prova no artigo que publicou no dia 15 de Março.

Concordo inteiramente com ele quando diz que pelo facto de os números de infetados serem públicos a realidade não pode ser ocultada por “políticos negacionistas”, erráticos ou lentos na ação. Os números são realmente alarmantes e as taxas de crescimento diárias têm que nos interpelar. E obrigar a ficar em casa. E trabalhar a partir de casa sempre que possível (deputados da AR incluídos!). E fechar fronteiras, já.

Civicamente, só há um cenário possível: protegermo-nos individualmente, isolando-nos para não ficarmos infetados nem infetarmos os outros. Politicamente, a decisão tem que passar por fechar fronteiras. Ontem. E fazer tudo o que é preciso fazer, para além das boas medidas que já foram tomadas.

“No momento em que escrevo estas linhas, Itália é, para sua desgraça, o verdadeiro tubo de ensaio da Europa. O que acontecer em Itália em função das medidas drásticas tomadas indicará o que vai acontecer nos outros países europeus. Ora as notícias que vêm de Itália não permitem, neste momento, grande otimismo. (…) Não é exagero dizer que a Europa está a ser engolida por um tsunami”.

Continuo a citar Jorge Buescu porque todos não somos demais para fazer os sublinhados essenciais. Faço-o porque também acredito que são precisas medidas ainda mais radicais, se possível supersónicas, para irmos a tempo de evitar uma calamidade nacional. Temos que ter muito presente que o pior ainda não aconteceu entre nós, mas infelizmente vai acontecer. Mais depressa do que esperamos.

Deveríamos ter tomado as medidas italianas há uma semana, garante Buescu, mas ainda vamos a tempo se corrermos contra … o tempo.

“Não tenha o leitor a menor dúvida: está a aproximar-se de Portugal um gigantesco tsunami com um potencial de destruição humana inimaginável. Um tsunami invisível, e talvez por isso ainda mais perigoso: muitas pessoas ainda vivem como se estivéssemos numa calma expectativa de que talvez ele passe ao largo. Não tenha ilusões: ele está aí a rebentar, já esta semana”.

Todos gostávamos de acreditar que Buescu está a exagerar, mas os números não enganam, a matemática que confere a progressão epidemiológica é dramaticamente infalível e, para cúmulo, tudo indica que os serviços entrarão em colapso por falta de meios. “E os médicos terão de tomar, como já acontece em Itália há mais de uma semana, decisões de vida ou de morte, decidindo quem fica com o ventilador”.

Temos que tirar partido da vantagem do nosso atraso em relação a Itália e até mesmo em relação a Espanha. Continuo a citar Buescu por ter dito com clareza e frieza tudo o que era preciso dizer. A mim pouco mais me resta que amplificar a sua voz: “temos que decretar o lockdown imediato do País, à italiana. Fechar o comércio, bares, restaurantes, cafés, tudo. Isolamento social completo e limitações drásticas à circulação de pessoas. Todos os eventos sociais cancelados. Decretar o recolher obrigatório, chamemos-lhe estado de sítio ou de emergência. Ficariam abertos apenas farmácias e mercados para bens essenciais, sendo atendida uma pessoa de cada vez. A situação em Portugal vai piorar muito antes de começar a melhorar. Mas para melhorar temos de agir. Cada dia que passa sem nada fazermos é um dia, dentro de duas semanas, com mais mortos desnecessários”.

Escrevo na esperança de poder contribuir para dar ainda mais voz aos que precisam de ser ouvidos, mas também porque acredito que neste tempo volátil e ameaçador, nos cabe ser ainda mais humanos. O isolamento social impede-nos de entrar em casa dos vizinhos, mas não nos impede de lhes ligar, de lhes escrever um bilhete ou deixar uma nota na entrada (ou até de lhes bater à porta) para perguntar se podemos ajudar.

As correntes solidárias que vemos acontecer em tempos de guerra, catástrofe e escassez já estão ativas e muitas outras vão ser lançadas ainda hoje, amanhã, depois de amanhã e por aí adiante, à medida em que a realidade se vai tornando erosiva e dramática para os mais sós, os abandonados, os excluídos, os vulneráveis e os doentes.

Falo, por exemplo, do site em construção sosvizinho.pt, uma plataforma online que um grupo alargado de cidadãos está a construir dia e noite para reunir voluntários para apoiar os mais velhos e mais frágeis. Muito em breve estará funcional, mas todos podemos começar a passar palavra. E a recolher ajudas porque o pior ainda está para acontecer.

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar o que se está a passar. Não podemos fingir que não sabemos ou que ninguém nos avisou. A partir de agora a única lógica possível, que garante a sobrevivência (nossa e dos outros) é a do “todos por todos”.

P.S.: Buescu diz que é preciso fechar tudo e eu pergunto como é que os deputados e o Presidente da Assembleia da República ainda não perceberam esta evidência e continuam a dar sinais contrários aos cidadãos (e um péssimo exemplo!), mantendo a sua presença massiva no Parlamento.