N-o-n-a-g-é-s-i-m-o. É uma palavra com dez letras, são muitas, não tantas quanto o número ao qual a palavra se refere. Antes de ela aparecer surgem oitenta e nove coisas, que também são muitas. Foi nessa posição que Rui Vitória, num desabafo que durou quase um minuto, colocou alguém na sua classificação mental de importâncias. Pensou numa espécie de top-100. À frente dessa pessoa colocou os antigos colegas, tranquilos no 13.º lugar, seguidos dos professores das filhas, no 18.º. Lembrou-se do motorista que um dia lhe deu boleia até Fátima, deixou-o no 23.º lugar. Até se recordou do tipo que uma vez lhe vendeu pipocas numa festa, suficiente para ficar no 77.º posto. Há espaço para tudo.

Até para Jorge Jesus.

Quem manda no Benfica não tem que se lembrar de quem já lá ordenou — é obrigado a fazê-lo. Rui Vitória entra numa sala à pinha de gente, jornalistas e fotógrafos por todo o lado, onde nem lugares sentados há para todos, e devia estar a sorrir. Era suposto ter os dentes todos à mostra, estar expansivo, incapaz de fugir à boa disposição. Assim estava Claudio Ranieri na primeira conferência de imprensa que deu em Inglaterra, já campeão pelo Leicester. Bebeu champanhe, caminhou no meio de quem passa um ano a fazer-lhe perguntas, distribuiu passou bens, posou para fotografias. Qual quê, Rui Vitória não faz nada disso. Nem pode fazer.

A enésima sessão de interrogatório da época, aquela em que mais à vontade deveria estar, é mais uma igual a tantas outras. Senta-se na cadeira, fica como uma gazela em campo aberto à mercê de perguntas, e espera. Venham as questões. Elas chegam e Rui Vitória perde o pouco sorriso que tem. “Pronto, só podia, vai ser o mesmo do costume”, terá pensado, para os seus botões. Uma, duas, três, as perguntas não chegam à dezena e quase todas tocam na mesma pessoa, a que esteve ali antes de ele estar.

É tudo igual ao que costuma ser. Querem saber o que Rui pensa do que Jorge disse, o que acha Vitória sobre o que Jesus fez, como ele vê uma guerra que, se não existisse, teria que ser inventada. O problema é que até foi, sobretudo ali, ao fim da tarde do domingo em que Rui Vitória acabava de ser campeão e o Benfica tricampeão. Podia-se estar ali a ouvir o treinador fazer um balanço da época, a destacar os jogadores, a resumir as dificuldades, a lembrar um momento ou outro, a elogiar uns quantos nomes. Mas não, as dezenas de jornalistas que ali estão querem ouvi-lo falar de Jorge Jesus.

Benfica's head coach Rui Vitoria looks on moments before the Portuguese league football match Benfica vs CD Nacional at Luz stadium in Lisbon on May 15, 2015. / AFP / PATRICIA DE MELO MOREIRA (Photo credit should read PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images)

E o treinador responde perguntando, explicando o porquê de ele ser diferente enquanto nós — jornalistas, adeptos e entendidos de futebol — insistimos em ser iguais. Rui Vitória começa a listar as prioridades até colocar Jorge Jesus no 90.º lugar, depois de tudo e mais alguma coisa. Quem estava na sala ri-se durante a listagem, acha piada à fuga para a frente que o técnico faz. “Acho que vocês perceberam que nós somos diferentes. A minha forma de abordar a vida é completamente diferente”, diz, antes de enumerar as coisas.

Tem razão, porque nós somos todos iguais.

Havia tudo e mais alguma coisa para lhe perguntar. Mesmo que não houvesse, deixava-se o treinador do Benfica desfrutar. Ninguém tocou no facto de os encarnados aparecem no jogo do título com Talisca, Grimaldo e Lindelöf no onze. Não se ouviu vivalma a pedir a Rui Vitória para falar sobre a época de Renato Sanches. O monstro que é Jonas. O talismã que foi Jiménez. O cansaço que houve para resolver no final do campeonato. As tremedeiras contra os melhores e a eficácia contra os piores. O moral que este título dá para a final da Taça da Liga, na sexta-feira. Não, quis-se carregar na tecla gasta e forçar a troca de palavras com Jorge Jesus.

Claro que tudo isto dá que pensar. Porque se o jornalismo é a voz dos cidadãos e de quem lê, ouve e vê, então deduz-se que a maioria das pessoas que gosta de futebol só quer saber o que Rui Vitória acha de Jorge Jesus, e vice-versa. Rui Vitória fez questão de dizer que é diferente talvez por nos ver todos iguais, a querermos ouvi-lo sempre sobre o mesmo assunto. Por isso respondeu à letra, atirou o treinador do Sporting para o 90.º lugar, inventou uma farpa para tentar espetar o tema de vez.

Mas se Rui Vitória tem Jorge Jesus tão lá em baixo na classificação de prioridades, nós estamos em último. E merecemos.