Portugal é um país de emigrantes.

Um relatório estatístico da ONU de 2017 diz haver 2 milhões 266 mil 735 portugueses espalhados pelo Mundo, a maior parte na Europa. Durante décadas emigrámos, primeiro os mais pobres de nós, trabalhadores indiferenciados, alguns refugiados políticos, depois os mais novos e qualificados, em busca das oportunidades profissionais que o país não lhes oferecia.

Fomos milhões, somos milhões. E o Mundo, da velha e generosa Europa ao Novo Continente, recebeu-nos. Com mais ou menos hospitalidade, os nossos compatriotas encontraram abrigo, refúgio, um caminho novo para trilhar. E com a gratidão que este povo sabe ter, contribuíram para o progresso, o bem-estar e o desenvolvimento dos países de acolhimento.

Como nós, muitos outros povos emigram e emigraram ao longo dos séculos, das décadas, dos anos. Os irlandeses emigraram, os polacos emigraram, os russos, os gregos, os italianos. Povos de todo o Mundo, em busca de novas oportunidades ou, simplesmente, para sobreviver.

E a Europa, salvo os períodos de negror que nos envergonham, foi sempre, com constância, um continente de acolhimento. Fez-se assim e assim se ergueu farol de liberdade, compaixão e solidariedade. Tal como os Estados Unidos, somos terra de acolhimento, húmus de onde brotaram povos que, misturando-se, na riqueza fecunda da miscigenação e da convivência tolerante, se fizeram melhores, mais inteligentes, produtivos e felizes.

O que se passa hoje com o navio Aquarius, proibido de entrar em Itália pelo governo Lega-5 Estrelas, é uma vergonha. E no jogo do empurra, o novo governo espanhol, honra lhe seja, dispôs-se a receber os 629 migrantes amontoados no Aquarius. A desgraça é europeia. Porque a Europa tem milhões de descendentes espalhados pelos outros continentes.

A Europa é tanto um porto de abrigo, como de partida: os genes europeus estão hoje inscritos, em percentagens significativas, em África, na Ásia, em grandes proporções na América, até na Oceânia. São descendentes, alguns recentes, de emigrantes europeus.

O episódio do Aquarius ilustra a ameaça contida no nacionalismo xenófobo, tão em moda. Ele põe em causa valores fundadores da civilização Ocidental e Europeia; destrói, no processo, a solidariedade, fundamental para manter unidos os europeus; encoraja outros países a fechar-nos as portas sempre que, e quando, sejamos nós a emigrar, como tantas vezes ao logo da História; ameaça a única solução para um continente a viver em pleno Inverno demográfico, a perder população e que só com imigração massiva pode salvar, entre outros bens, o precioso sistema social e o Estado de bem-estar europeu que tanto prezamos.

Em 2015, pela primeira vez em tempo de paz, a população europeia decresceu.

Já há imigrantes a mais, proclamam os Salvini e todos os adeptos da teoria dos Muros, esquecendo-se que se eles impedem os Maus de fora de entrar, também mantêm dentro os Maus de dentro. E repetem como se a repetição fizesse da falsidade verdade, que os imigrantes são um fardo para as economias dos países anfitriões, que roubam empregos aos nacionais, que são fonte de criminalidade, perturbação da ordem pública e terrorismo.

Um estudo de Janeiro deste ano da Bruegel mostra como as percepções negativas sobre o impacto dos imigrantes nada têm a ver com a realidade. Uma sondagem da OIM, de 2015, revelava que os europeus são, no Mundo, quem tem uma visão mais negativa sobre as migrações, com 48% a defender a necessidade da sua redução. Mas a maior parte dos europeus acha que o número de imigrantes no seu país é muito superior à realidade.

Os movimentos e partidos políticos nacionalistas e anti-sistema afirmam-se quase sempre com base em campanhas anti-imigrantes. A retórica é típica de uma espécie de prova de vida do Estado-nação num Mundo crescentemente (e inexoravelmente) globalizado; embora não tenha hipótese de inverter essa realidade pode provocar grandes estragos e, pelo caminho, destruir muito do que de bom foi feito nos últimos anos.
Proibir o Aquarius e querer construir barreiras nas fronteiras marítimas da Europa é um retrocesso civilizacional grave.

Levará ao aumento das tensões intra-europeias, reduzindo a liberdade de circulação interna, uma grande conquista da integração europeia. Dificultará o acesso dos migrantes europeus a outros continentes. Impedirá a chegada dos milhões de pessoas de que o continente precisa para alimentar um mercado de trabalho carenciado, salvando o Estado social e contrariando a estagnação e até o recuo demográfico. Riscará na superfície alterosa do Mar Mediterrâneo e das outras fronteiras físicas da Europa um Muro entre povos mais perigoso, mais nefasto e diabólico, do que outros Muros de má memória.

E ao fundo desse Mar continuarão a chegar os corpos dilacerados das vítimas inocentes da insensibilidade humana.

A págs. 14 do citado relatório Bruegel propõe-se soluções para as questões sérias e atendíveis relacionadas com os migrantes. A preocupação manifestada pelos europeus obriga as autoridades nacionais e europeias a adoptar medidas concretas e eficazes. Mas não é resposta alimentar o ódio e fechar a porta aos que buscam refúgio ou refrigério em solo europeu.

Pergunte-se o leitor quantos imigrantes estrangeiros há na Europa. São milhões, claro. Mas são poucos. Em 1 de Janeiro de 2017, segundo o Eurostat, viviam na UE 36,9 milhões de pessoas oriundas de um país terceiro, menos de 7,4% do total da população da União.

A conclusão é simples: precisamos de mais e não de menos imigrantes. E não podemos tolerar, em nome da decência e da verdade, vergonhas como a do navio Aquarius.